“Para um jogador ser feliz dentro do campo, tem de ser feliz fora dele”


Aos 22 anos, prova no Bonfim que a jovem promessa do passado é hoje um talento confirmado.

Cedo lhe auguraram um futuro incrível no futebol. Aos 22 anos, prova no Bonfim que a jovem promessa do passado é hoje um talento confirmado. Peso a mais e algumas lesões trocaram as voltas a Hildeberto Pereira em Inglaterra e na Polónia. No horizonte a vontade de voltar a vestir a camisola de Portugal e o desejo de cumprir a aposta que fez com Vasco Fernandes, Nuno Pinto e Zequinha.

Cabo Verde e Portugal são dois países que lhe dizem muito?
Os meus pais são cabo-verdianos, mas ainda não tive a oportunidade de lá ir. A minha família é toda de lá e Cabo Verde é um país lindo, por isso quero conhecer e aproveitar para estar com alguns membros da minha família. 

Apesar de ter nascido em Lisboa, a cultura cabo-verdiana influencia o seu dia-a-dia?
Sim, influencia. Eu convivo praticamente todos os dias com pessoas de Cabo Verde, sobretudo quando vou visitar o meu pai. Até sei falar um pouco crioulo. 

Na escola, como era o Hildeberto?
Sinceramente, nunca fui muito focado na escola, mas ainda assim admito que os estudos são muito importantes. Nunca tive muito aquela vontade de ir para as aulas. Quando me comecei a dedicar mais ao futebol deixei a escola para trás.

Sempre quis ser jogador de futebol?
Os meus amigos do bairro diziam que eu não sabia jogar futebol, mas quando fui para a Casa do Gaiato (colégio) aprendi a jogar futebol. Estive lá cinco anos e jogava futebol todos os dias. Foi aí que começou o sonho de ser jogador.

Em miúdo, quais eram as suas referências do futebol?
Comecei a jogar à bola a partir dos 14 anos. Quando cheguei ao Benfica é que comecei a acompanhar mais de perto o Ivan Cavaleiro e via-o como um exemplo a seguir. Depois também sempre gostei do Ronaldo “Fenómeno”.

Hildeberto representou o Benfica entre 2011 e 2016

Estreou-se no principal escalão do futebol português esta temporada. Escolha acertada?
Sim, foi uma escolha acertada. Estou no meu país e como estive dois anos fora de Portugal, onde as coisas não correram muito bem, voltar ao meu país foi a melhor coisa.

Está feliz no Vitória FC?
Estou muito feliz, sim. Foi a melhor coisa que eu fiz. O clube tem-me tratado muito bem, os meus colegas são maravilhosos e isso é muito importante. Para um jogador ser feliz dentro do campo, tem de ser feliz fora dele.  Todos os dias, a comitiva do Vitória deixa-me feliz.

Como avalia o staff e equipa técnica do Vitória de Setúbal?
É um grupo muito forte e unido. Trabalhamos muito bem, apesar de não termos alcançado os resultados que queríamos. Continuamos a trabalhar e depois desta vitória com o Moreirense seguimos fortes. 

Com a camisola do Vitória FC, cumpre a primeira época no principal escalão do futebol português

Esteve em bom plano no encontro frente ao FC Porto, e depois marcou um hat-trick ao Moreirense. Ouvi dizer que o Vasco Fernandes, o Nuno Pinto e o Zequinha é que vão pagar a fatura. Que aposta é que fizeram? Como é o ambiente com os colegas?
Vão ter que pagar o jantar, sim, mas ainda faltam uns golinhos para isso. São dez golos e sete assistências. Esta aposta com eles é uma motivação para mim. O ambiente de balneário do Vitória é o melhor em que já estive.

E os adeptos?
Como já tiveram oportunidade de ver, a relação tem sido boa. Os adeptos enchem sempre o estádio seja em que jogo for. Nós vamos dar tudo dentro do campo e mostrar que somos um grande clube.


As aventuras no Nottingham Forest (Inglaterra) e Legia (Polónia) como foram?
É muito diferente. Fui para países onde não sabia falar a língua e tornou-se complicado. Mas como tinha no Nottingham o Licá e o João Teixeira e no Legia o Cafu, foi muito importante. Eles já falavam o idioma de lá e foi uma grande ajuda. O futebol na Polónia é muito mais físico e cá é muito mais técnico.

Custou deixar Lisboa para rumar a Inglaterra?
Foi triste. Estava sempre com a família e com os meus amigos do bairro, mas teve de ser por causa do meu futuro. Por acaso quando cheguei a Nottingham tinha lá dois amigos do meu bairro e convivia com eles.

A primeira experiência fora de Portugal foi ao serviço do Nottingham Forest

Na Polónia foi melhor ou pior? 
As pessoas podem pensar que é fácil viver na Polónia, mas não é. É muito complicado falar polaco. Fui para lá sozinho e sentia-me muito triste.

Ainda assim venceu dois troféus…
Sim, é sempre bom ganhar títulos. Tive momentos felizes no Legia e considero que essas duas conquistas foram importantes para a minha carreira.

Teve dificuldades na adaptação ao futebol polaco?
O futebol foi bom, mas como tive algumas lesões e algum peso a mais, as pessoas falavam, mas elas tinham razão. Acho que foi isso que me prejudicou. Fora isso, tinha tudo para correr bem. Coincidiu também com a altura em que estava quase a ser pai.

“Se queres ser um jogador de top, nunca podes pensar em desistir”

Peso a mais, alguma irreverência e lesões. Tudo isto fez parte da sua carreira em determinado momento. Quem era o Hildeberto Pereira do passado?
Houve uma altura em que desliguei um bocadinho do futebol e isso não pode acontecer. Se queres ser um jogador de top, nunca podes pensar em desistir. Aprendi com os erros e agora estou mais maduro e isso nunca mais vai acontecer.

Momentos mais positivos e negativos da carreira?
O mais positivo foi o que eu aprendi em cada clube que passei. Hoje sou melhor devido a tudo o que aprendi por onde passei. O pior momento foi a morte da minha avó. Estive no colégio e já não a via há muito tempo. Quando saí foi muito triste para mim saber que ela partiu. Ela andava sempre ao pé de mim e queria muito que eu fosse jogador. Isso agora dá-me mais motivação.

Já representou a Seleção Nacional nas camadas jovens (dos sub-18 aos sub-20). Chegar aos AA de Portugal é uma ambição?
Claro, é o meu país. É um orgulho para mim e para a minha família. Cada convocatória que recebia era um orgulho. Vou continuar a trabalhar para isso.

Depois de representar Portugal dos sub-18 aos sub-20, o avançado sonha com a Seleção AA

Hoje, “a jovem promessa” está pronta para provar a qualidade evidenciada?
Claro! Trabalho todos os dias para alcançar os objetivos coletivos e individuais. Estou no caminho certo. Não posso ficar a pensar nos três golos ao Moreirense. Já passou. Agora é manter a qualidade.

O facto de desde muito cedo lhe terem augurado um futuro fantástico pesou em alguns momentos?
No meu caso, não. Sempre fui humilde e trabalhador. Claro que isto ainda não acabou, ainda agora começou. Tenho 22 anos e só quero fazer uma belíssima carreira.

Alguma vez pensou em desistir?
Sim, quando estava no Legia. Não sabia bem o que se passava comigo, estava com peso a mais. Havia momentos em que chegava a casa e só pensava em desistir. O bom é que tinha a minha família e o meu empresário a apoiarem-me.

O seu pai foi o único que acreditou no seu valor?
Sempre me deu conselhos e falou comigo sobre tudo. Quando ele fala é uma coisa que interiorizo e reflito sobre isso. Ele costuma dizer: “Cuidado como tratas os árbitros, cuidado com os amarelos”. Eu aprendo muito com o meu pai.

Qual é a coisa que mais se arrepende de ter feito e de não ter feito?
Não tenho. Não me arrependo daquilo que fiz.


Perfil
Nome: Hildeberto José Morgado Pereira
Data de nascimento: 2 de março de 1996
Posição: Avançado
Percurso como jogador: Ponte Frielas (formação), Odivelas (formação), Ponte Frielas (formação), Loures (formação), Benfica (formação), Benfica B, Nottingham Forest (Inglaterra), Legia (Polónia), Northampton Town (Inglaterra) e Vitória de Setúbal.