“Só quero jogar e ter a oportunidade de mostrar que estou vivo”


Edgar Ié, do Feirense, esteve um ano e sete meses sem competir.

Foi campeão na Turquia, venceu uma Taça do Rei pelo Barcelona e regressou no início desta época a Portugal para representar o Feirense.

Aos 31 anos, e depois de ter estado 19 meses sem competir devido a lesão, Edgar Ié não baixou os braços e voltou aos relvados em novembro do último ano, num jogo em que defrontou o clube que o formou, o Sporting.

O internacional guineense, que também representou Portugal, quer demonstrar que ainda tem muito a dar ao futebol e ajudar o Feirense a alcançar os objetivos.

Começaste a jogar em Portugal com 13 anos, no Oeiras. Como surgiu essa oportunidade?
Vim para Portugal com o meu pai e o meu irmão [Edelino Ié] para vir estudar, mas depois acabei por ir para o Oeiras.  

E a ida para o Sporting, como é que aconteceu?
Foi através do jogador Lassana Camará, que tinha o Catió Baldé como empresário. O Catió entrou em contacto com o meu pai e através dele, eu e o meu irmão gémeo [Edelino Ié] fomos fazer testes ao Benfica. Não conseguimos ficar lá e o Catió conseguiu o contacto do Sporting. Fomos lá e acabámos por ficar os dois, depois de fazermos alguns testes.

Estiveste quatro anos na formação do Sporting. Esse período foi importante para o teu crescimento como jogador?
Sim. Tornei-me homem quando saí de lá, para tentar a sorte noutro país.

Aos 18 anos vais para o Barcelona. Chegando a um clube destes, com esta idade, é muito fácil ficar iludido. Sentiste que isso aconteceu contigo?
Não. Foi uma boa experiência e gostei de estar lá. Fui para lá, infelizmente fiquei lesionado e estive muito tempo a recuperar, até que consegui voltar à competição.

Ainda fizeste um jogo pela equipa principal do Barcelona. Foi o ponto alto da tua carreira? Com que craques jogaste nesse jogo, recordas-te?
Sim, foi. Desde aí comecei a usar o número 32, que tem um enorme significado para mim. Foi o número que utilizei na minha estreia como profissional, na Taça do Rei. Nesse jogo joguei com o Iniesta, Pedro Rodríguez e o treinador era o Luis Enrique.

Em 2015 vais para a equipa B do Villarreal. O que sentiste quando saíste do Barcelona? Ficaste desiludido?
Nem era algo que esperava. Estava a contar ir para um clube que não tivesse equipa B, mas o meu empresário só conseguiu o Villarreal B e então fui para lá. Tentei chegar à equipa principal, fiz alguns treinos, mas não consegui ser promovido.

“Nunca desisti e treinei sempre. Arranjei um PT e treinava todos os dias. Queria voltar mais forte que nunca e não parar.”

Em 2017 regressas a Portugal, fazes a estreia na Primeira Liga pelo Belenenses e isso valeu-te a transferência para o Lille. Voltar a Portugal foi determinante para relançares a tua carreira?
Sim, sem dúvida. Através da Seleção Nacional também, o Rui Jorge ajudou-me nesse percurso. Ele falou com o anterior presidente do Belenenses SAD, Rui Pedro Soares, que contactou o meu empresário e o negócio aconteceu.

Depois de uma época com muitos jogos no Lille, foste emprestado ao Nantes. O que aconteceu para seres cedido?
Não sei o porquê. O Lille tinha muitos jovens, a época não correu muito bem e a meio da temporada mudaram de treinador. Chegou outro que conseguiu garantir a manutenção e na época seguinte trouxeram muitos jogadores. A meio da época decidi pedir para ser emprestado porque não estava a ter muitas oportunidades.

Na época que foi interrompida por causa da Covid-19 jogaste noutro grande clube europeu, o Feyenoord. Foi uma época importante para ti?
Sim, foi, porque inclusivamente joguei a Liga Europa, defrontei o FC Porto e ganhámos em Roterdão.

Em 2020 escolheste o Estágio do Jogador, do Sindicato, para preparar a nova época, apesar de estares contratualmente ligado ao Trabzonspor. Como foi partilhares o espaço de treino com jogadores sem clube?
Foi uma experiência bonita. Para não estar parado durante as férias, alguns amigos meus disseram-me para treinar com eles. Têm condições de treino muito boas e aproveitei essa oportunidade para não ficar parado.

Seguiram-se duas boas épocas no Trabzonspor e depois, a partir de 2022, começas a fazer poucos jogos, no Basaksehir e Dínamo de Bucareste. Foi aí que começaram os problemas físicos?
Na Roménia tive um episódio engraçado porque cheguei lá para jogar. Já tinha tido lesões musculares no Basaksehir e no Dínamo tive o mesmo problema. Não sei qual foi o jornalista que inventou a história que era o meu irmão que estava a jogar no Dínamo e deu uma grande confusão. O clube teve de fazer um comunicado a dizer que era eu que estava lá e decidi sair da Roménia porque esse episódio manchou a minha imagem. Não compensava mais ficar lá. Não gostei nada desse episódio.

Estiveste mais de uma época inteira sem competir. Chegaste a pensar em desistir do futebol?
Não. Nunca desisti e treinei sempre. Arranjei um PT e treinava todos os dias. Nunca pensei em desistir. Queria voltar mais forte que nunca e não parar. Estava sempre focado em manter a forma porque a oportunidade podia aparecer a qualquer momento.

“A minha família e os meus amigos sempre me apoiaram, para não me sentir sozinho. Se estivesse isolado ficava triste e então ia treinar sempre com os meus amigos, para não me afetar depois de tanto tempo sem jogar.”

O que sentiste quando fizeste esta época o primeiro jogo pelo Feirense e logo contra um clube que te diz muito, o Sporting?
Senti-me bem. Há muito tempo que não jogava um jogo oficial e voltar frente ao Sporting foi tudo diferente para mim e foi bom ter voltado.

Como é que surgiu a oportunidade de representares o Feirense, depois de sete anos no estrangeiro e uma época sem jogar?
Foi através do Simão Júnior, que jogou aqui, no Feirense. Os empresários mandavam mensagem, depois ficava com a sensação de que não ia dar e apareceu o Simão Júnior, que me falou na oportunidade do Feirense e nem pensei duas vezes. Só quero jogar e ter a oportunidade de mostrar que estou vivo. Sinto-me feliz, quero jogar mais e meter o meu nome lá em cima.

As lesões afetam não só o físico do jogador, mas também o psicológico. Chegaste a recorrer a apoio psicológico durante o processo de recuperação da lesão?
A minha família e os meus amigos sempre me apoiaram, para não me sentir sozinho. Se estivesse isolado ficava triste e então ia treinar sempre com os meus amigos, para não me afetar depois de tanto tempo sem jogar. Nunca recorri a psicólogos.

Tens um irmão gémeo, que também é jogador de futebol. O apoio familiar foi importante no período em que estiveste longe dos relvados?
Sim, o apoio da minha família foi muito importante. Estava sempre com o meu irmão, para nos apoiarmos um ao outro.

Tendo em conta a imprevisibilidade do futebol e aquilo por que já passaste, tens-te preparado para o final da carreira?
Por agora ainda não pensei nisso. Só estou preocupado em jogar.

Jogaste nos principais clubes de Portugal, Espanha e França e foste campeão na Turquia. Ainda assim, tens sonhos por cumprir no futebol?
Quero continuar a jogar, divertir-me e é isso que faço. Gostava de voltar à Seleção da Guiné-Bissau e ajudar o Feirense, para estar o mais acima possível.