“Sinto que posso dar muito ao futebol como jogador e, depois, como treinador”
Aos 21 anos, Gustavo Sá é capitão do Famalicão e já tem bem definido o que quer para o pós-carreira.
A cumprir a quarta época na equipa principal do Famalicão, Gustavo Sá enverga a braçadeira de capitão com uma maturidade acima da média, aos 21 anos de idade.
O internacional sub-21 português já tem bem definido o que pretende fazer no pós-carreira, sublinha a importância da saúde mental no futebol e defende a salvaguarda do bem-estar físico dos jogadores, perante o aumento do número de jogos.
Quando é que foste designado pela primeira vez como capitão de equipa?
Na formação cheguei a ser capitão, nos sub-16 e nos sub-17. Não como primeiro capitão, mas fazia parte do grupo de capitães.
No caso da equipa principal do Famalicão, foste escolhido como capitão pelos jogadores ou pelo treinador?
Foi uma escolha do mister e da Direção.
Normalmente os capitães são jogadores mais experientes, mas o teu caso é singular porque tens apenas 21 anos. A idade influencia a função do capitão?
Acho que essa ideia é algo que faz parte do passado. Antigamente o capitão era o jogador com mais anos de clube e que tinha uma idade superior a todos os outros jogadores, mas acho que isso acontece cada vez menos e deveria acontecer menos. O facto de ser capitão com uma idade tão jovem é bom, porque revela a maturidade que tenho. Sou o jogador que está há mais tempo no Famalicão, incluindo os anos que passei nos escalões de formação, e ser capitão com 21 anos revela também a ajuda que tenho dos meus colegas.
Quais são as características que um capitão deve ter?
O facto de ser líder do grupo ajuda bastante, tanto para o jogador, como para o grupo e para o clube. Um capitão tem de ser um jogador com uma maturidade acima da média, que é algo que ainda estou a desenvolver. E o capitão é alguém que merece respeito e impõe respeito.
Que valores transmites a quem chega ao clube?
Os valores que passo são os que me passaram quando cheguei ao Famalicão. Um clube em crescimento, que tem melhores condições e profissionais a cada dia que passa e é isso que digo aos jovens que vêm treinar à equipa principal.
Há algum capitão em que te inspires?
O Riccieli, o primeiro capitão que tive quando cheguei à equipa principal. Há pouco tempo estivemos com ele e brincou um pouco com a situação do capitão. Para mim sempre foi um exemplo.

“Neste momento tenho a minha licenciatura congelada, porque decidi fazer do futebol a minha vida, mas tenho os meus planos muito bem definidos.”
Como é que um rapaz com 21 anos se ‘impõe’ perante jogadores com mais experiência, como o Rafa Soares, Rochinha ou Gil Dias?
Estar com eles é bom, porque são idades e perspetivas de jogo diferentes, mas somos todos um bocadinho capitães de equipa no Famalicão e isso é bom.
Quais são as mais-valias que a tua juventude, enquanto líder do grupo, pode trazer ao resto da equipa?
Acho que a minha idade pode influenciar na liderança do grupo porque são pensamentos diferentes, formações diferentes e chegar a um consenso com essas ideias todas é muito bom e faz bem ao grupo.
Foste eleito pelo Sindicato como o Melhor Jovem dos dois primeiros meses da época da Primeira Liga. O que significa para ti essa distinção?
É muito importante. Receber um prémio que já recebi noutras épocas reflete o trabalho da equipa nos primeiros dois meses do ano, em que estivemos muito bem. O prémio também podia ter ido para o Rodrigo Pinheiro ou o Mathias de Amorim e reflete o bom trabalho da equipa.
Quem é que te incentivou a ser jogador de futebol?
Sempre tive a paixão pelo futebol. O meu pai sempre foi mais ligado ao desporto e sempre estive muito ligado ao futebol, a brincar com uma bola com os meus amigos na rua, essa paixão foi-se desenvolvendo e agora faço disto a minha vida.
Já estiveste num Europeu de Sub-19 e de Sub-21 por Portugal, escalão que ainda representas. Acreditas que a chamada à seleção A pode estar para breve?
Para breve não sei, mas é algo que quero muito conquistar. Leva o seu tempo e não quero dar passos em falso. Com as chamadas do Carlos Borges, do Rodrigo Mora e do Quenda à Seleção A, é um pensamento que tenho na cabeça e quero muito que se realize.
O Sindicato tem insistido na importância de os jogadores continuarem os estudos. Estás a tirar ou pensas fazer alguma formação superior?
Neste momento tenho a minha licenciatura congelada, porque decidi fazer do futebol a minha vida, mas tenho os meus planos muito bem definidos. Quando terminar a carreira de jogador quero ser treinador. Já tenho o grau I e quero continuar a desenvolver-me nesse aspeto para ser um treinador tão bom como posso vir a ser jogador.
Outra das preocupações do Sindicato é a literacia financeira. Tens algum investimento ou estás a pensar fazê-lo, para acautelar o futuro pós-carreira?
Sim, é verdade que é um aspeto que não é falado com a frequência que devia ser falado. Se na escola me falassem sobre a literacia financeira não sabia responder, mas tenho consultado pessoas que me ajudam com isso e percebem mais do assunto do que eu. A minha namorada também me ajuda bastante nisso porque estuda gestão e sei muito bem o que tenho de fazer e o que quero fazer. Espero que os rendimentos no futebol me ajudem nisso.

“Quando temos jogos de três em três dias fico contente, mas compreendo que, para os jogadores que já estão nisto há muitos anos, o aumento dos jogos possa ser prejudicial para eles e para todos.”
O Sindicato tem uma função social de apoio e proteção dos jogadores, nomeadamente em situações de salários em atraso e desemprego. Conheces algum jogador que já tenha passado por alguma destas situações?
Não tenho assim muitos amigos que estejam ligados ao futebol, mas já ouvi histórias disso, é algo que pode acontecer com jogadores que tenham uma carreira bastante curta e é necessário ter precaução com isso.
Na tua opinião qual é a importância da saúde mental no futebol?
É um assunto que se desenvolve cada vez mais e é 100% verdade. O jogador precisa de estar a 100% mentalmente, estar bem psicologicamente e ter confiança porque temos muitos jogadores com qualidade e potencial, mas que sem confiança e bem-estar psicológico têm dificuldades em chegar lá. E os jogadores precisam de falar, mandar cá para fora e ter profissionais que os ajudem com isso.
A carreira de um jogador é feita de momentos altos e baixos. Nos momentos mais negativos, se os tiveste, recorreste a apoio psicológico para dares a volta?
Nunca tive uma lesão ou um problema que me deixasse de fora dos relvados durante muito tempo, por isso não sou a melhor pessoa para responder a essa pergunta, mas tenho um treinador, o Mário Simões, que me ajuda na performance fora do clube e é um aspeto muito importante para todos os jogadores que jogam ao mais alto nível. É sempre bom estar bem fisicamente dentro e fora do clube.
Na tua opinião, deveria ser obrigatório os clubes terem acompanhamento psicológico permanente? Um psicólogo na estrutura do clube.
Sim, claro. Como já disse, tenho o treinador da parte física fora, o Mário Simões, mas também tenho uma pessoa que me aconselha muito na parte mental, chamo-lhe o treinador da mente, que é o Cristóvão, que trabalha no Porto e é um grande amigo meu e da minha namorada, que me ajuda com essas questões que considero mais importantes do que as questões físicas. Porque se não estivermos com calma é impossível transmiti-lo para o jogo.
Tem havido um aumento do número de lesões entre os jogadores que, no caso dos que participam em mais competições, de clubes e seleções, se têm queixado do excesso de jogos. Também sentes que há jogos e competições a mais, entre a elite?
Quando temos jogos de três em três dias fico contente, mas compreendo que, para os jogadores que já estão nisto há muitos anos, o aumento dos jogos possa ser prejudicial para eles e para todos. Das férias não tenho bem noção, mas sei que quando houve o Mundial de Clubes houve jogadores que só tiveram uma semana de férias e acho que isso não pode acontecer, se querem que o futebol continue com o nível alto que está e com a qualidade que os jogadores têm porque isso influencia o rendimento desportivo de toda a gente.
O Sindicato também tem defendido que o jogador deve estar próximo da comunidade. Já participaste em alguma ação social ou solidária ou tencionas fazê-lo?
Sim, já fui a escolas com o clube e o Famalicão pensa sempre nisso, especialmente na quadra natalícia. Lembro-me que no ano passado fomos entregar presentes a um lar em Joane e essas ações são sempre bem vistas e necessárias.
Apesar de ainda só teres 21 anos, já sabes o que vais querer fazer quando terminares a carreira de jogador?
Sim, quero ser treinador. Sinto que a ideia que tenho do jogo aos 21 anos já está bastante desenvolvida, claro que precisa de ser trabalhada e é isso que quero fazer futuramente, mas agora foco-me na minha carreira de jogador e vou ter muito tempo para pensar nisso. Quero muito que isso aconteça porque sinto que posso dar muito ao futebol como jogador e depois como treinador.