“Infelizmente vemos muitas jogadoras a desistir do futebol”
Catarina Pacheco, do Futebol Benfica, conciliou o desporto com o mestrado em ensino da educação física.
Catarina Pacheco já concluiu o mestrado em ensino da educação física ao mesmo tempo que concilia com a carreira de jogadora de futebol.
A lutar pela subida à Liga BPI com o Futebol Benfica, a lateral que completa 26 anos no Dia Internacional da Mulher aconselha as jogadoras a não desistir do futebol e a investir num plano B.
Sempre quiseste ser jogadora de futebol ou passou-te pela cabeça fazer outra coisa?
Desde pequenina que tinha uma grande paixão por jogar à bola. Jogava na rua, passou-me várias vezes pela ideia ser outra coisa, relacionada com biologia marinha ou com o desporto, ser professora, mas sempre tive muito presente o sonho de querer ser jogadora.
Os teus pais aceitaram bem a ideia de seres jogadora de futebol?
Ao princípio estive noutros desportos, fui nadadora e pratiquei atletismo, mas sempre insisti com a minha mãe, que já tinha sido jogadora, que queria muito ir para o futebol. Ela adiou sempre um bocadinho essa decisão, porque achava que era importante para mim passar por outras modalidades, mas para eles nunca foi uma questão e só na altura, devido à proximidade dos clubes é que houve alguma dificuldade em entrar no futebol, mas a partir do momento em que houve condições consegui entrar e nunca foi um problema para eles.
Nasceste em Cascais e foste jogar para o Boavista com 15 anos. Mudaste para o Porto por causa dos estudos ou pelo sonho do futebol?
Fui viver para o Porto, em Felgueiras, com cerca de sete, oito anos, porque na altura a minha mãe mudou-se para lá e eu fui com ela. A partir daí fiz a minha vida académica e desportiva no Norte e foi nesse sentido que mudei.
Já concluíste o mestrado em ensino da educação física ou ainda estás a estudar?
Já concluí, terminei em 2024 e está feito. Adoro ensinar e, para além da parte desportiva e de gostar de ser atleta, gosto de mostrar a minha paixão aos outros. Na altura escolhi a educação física e o ensino para ter esse gosto de ensinar e passar essa mensagem às crianças. Foi por isso que escolhi ser professora de educação física.
Ainda só tens 25 anos, mas já tens um plano B, com o curso em ensino da educação física. Quando terminares a carreira, vais ser professora a tempo inteiro?
Sim, é isso que me vejo a fazer. Mas também tenho outras paixões ligadas ao treino desportivo, seja futebol ou outras modalidades onde já estive.
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“É muito importante fazermos a nossa gestão financeira e termos um plano B noutra área que nos possibilite sair do futebol, para não estarmos desamparadas e conseguir fazer outra coisa além disto.”
Além do mestrado, tencionas fazer doutoramento ou alguma pós-graduação?
Agora que estou há pouco mais de um ano sem estudar, gosto de ser jogadora e atleta, mas também gosto de estudar e saber mais sobre alguma coisa. No presente não sei, mas gostava de investir num doutoramento lá fora ou numa pós-graduação cá, em gestão desportiva, porque o desporto é a minha paixão e ambição e gostava de explorar novas áreas e cursos, para ocupar a minha mente.
Qual a importância da educação?
A educação é importante, principalmente porque proporciona às crianças desde cedo aquilo que são as aprendizagens essenciais, aquilo que devemos aprender enquanto sociedade para nos adaptarmos e decidirmos quando chegarmos a adultos. O desporto é a melhor área para isso, para nos adaptarmos às adversidades e enquanto professores e atletas transmitirmos às crianças que temos de aprender, trabalhar e fazer as coisas de uma certa forma para crescerem cada um à sua maneira.
A Carla Couto e a Micas, nas visitas que fazem aos clubes, apresentam o plano do Sindicato para a educação. Como é que vês o papel do Sindicato na divulgação da importância da educação na carreira das jogadoras?
Acho que o Sindicato tem tido uma boa intervenção, com as jogadoras profissionais e amadoras, e tem tido um papel fundamental na passagem de informação, de questões não só ligadas ao futebol, mas também à educação. Falam-nos de algumas formações que podem dar e que são importantes para nós, de questões fora do futebol, o que também nos ajuda a procurar outras alternativas e é importante para captar o interesse da jogadora, que muitas vezes não faz porque não tem conhecimento. O Sindicato tem um papel muito importante porque consegue chegar a todas as jogadoras e está a fazer um bom trabalho nesta área. Quando a carreira da jogadora começa a aproximar-se do fim, começamos a pensar que não vai durar muito mais tempo e quando começamos a carreira desportiva temos a noção que vai chegar uma altura em que termina e que não é como as outras profissões que duram até aos 65 anos. Sendo uma carreira curta, precisamos de ter uma salvaguarda e é importantíssimo para as jogadoras pensarem nisso.
Com o crescimento do futebol feminino, achas que as jovens jogadoras vão focar-se mais no futebol e descurar os estudos ou continuar a conciliar as duas coisas?
Tenho uma opinião muito firme neste conceito de educação e desporto. Acho que todos os atletas, não só de futebol, devem formar-se numa outra área porque todas as carreiras desportivas terminam numa idade ativa em que temos muitos anos para trabalhar. Enquanto no futebol masculino há uma garantia financeira que nos garante o resto da vida, no futebol feminino, embora as condições estejam a evoluir, ainda não estamos lá e mesmo para as jogadoras que começam agora, não têm o suficiente financeiramente aos 35 anos para continuarem a sua vida a partir daí e é muito importante fazermos a nossa gestão financeira e termos um plano B noutra área que nos possibilite sair do futebol, não estarmos desamparadas e conseguir fazer outra coisa além disto.
É difícil conciliar futebol, estudos e família ou há tempo para tudo?
Não é difícil. O apoio da família é muito importante. Termos um suporte familiar que nos diga para irmos em frente é importantíssimo e não é difícil. Estar longe da família muitas vezes não é fácil, ficar sozinha a terminar os estudos e a jogar também e, além disso, também tive de trabalhar para pagar os meus estudos. Chegou a uma altura em que tive de parar para fazer a tese de mestrado, quando estava no Estoril com o mesmo treinador que tenho agora no Futebol Benfica [Renato Fernandes] e foi um processo difícil a nível mental porque queria muito o futebol, mas tive de balancear para não abdicar de nenhum e consegui. Foi uma altura em que fiquei na dúvida se optava pelos estudos ou futebol, mas tudo se alinhou e o treinador também ajudou. Não é difícil conciliar tudo, mas exige disciplina, concentração e trabalho, sobretudo psicológico. Na altura estava tentada a optar pelos estudos, porque o meu vencimento no futebol era mínimo em comparação com o que receberia noutro trabalho, mas ainda assim continuei a escolher o futebol, porque é uma paixão cega. Infelizmente vemos muitas jogadoras a desistir do futebol, porque não conseguem conciliar e têm de escolher um nível de gestão de tempo. Sei de algumas que não conseguem conciliar.

“A realidade do futebol feminino está diferente para melhor, com um grande caminho para percorrer, mas acredito que é preciso disciplina para ser jogadora profissional.”
Já jogaste na Liga BPI, pelo Boavista, Valadares Gaia e Estoril. É lá que pretendes regressar com o Futebol Benfica?
Adorava subir de divisão. É um sonho possível e estamos a trabalhar para isso. Cada uma de nós, enquanto jogadoras, e a equipa técnica está a trabalhar para isso, mas vamos ver. É um processo, queremos lá chegar e levar o Futebol Benfica à Primeira Liga, onde merece estar, e vamos ver…
No verão do último ano participaste no primeiro e inédito Estágio da Jogadora, organizado pelo Sindicato. Como é que viveste essa experiência?
Estava um pouco receosa quando me inscrevi, porque na altura já tinha tudo acordado com o Futebol Benfica, apesar de não estar assinado, mas pensei que estava de férias sem fazer nada e tive essa oportunidade. Falei com a Carla Couto e estive umas semanas integrada. Foi uma experiência incrível, há aspetos a melhorar, mas conheci pessoas novas, uma delas até é minha colega agora no Futebol Benfica, conseguiu ser colocada depois de ter estado no Estágio, e deu-me a possibilidade de treinar, conheci pessoas mais novas e foi uma boa experiência.
Qual é o teu maior sonho no futebol? Representar a Seleção Nacional ainda é um objetivo?
Enquanto atleta quero ser o melhor de mim. É o que penso sempre que vou ao ginásio, faço treinos bidiários, vou treinar ao clube, quero ser melhor hoje do que ontem e é o que quero atingir dia após dia. Representar Portugal é sempre gratificante e o maior sonho, mas um sonho mais real seria ter um contrato profissional no futebol e poder ser jogadora profissional de futebol.
Que conselhos deixas às jovens jogadoras que estão a dar os primeiros passos no futebol?
Trabalhar muito porque a disciplina é o mais importante no começo de carreira. Há muitas jogadoras, muitos clubes e pouco espaço para as jogadoras profissionais. É preciso foco e disciplina para o ensino e o futebol. A realidade do futebol feminino está diferente para melhor, com um grande caminho para percorrer, mas acredito que é preciso disciplina para ser jogadora profissional.
Como é que gostarias de ser recordada no futebol, daqui a 20 anos?
Neste momento falam de mim como um trator, que varre tudo [risos]. Gostaria que olhassem para mim como uma jogadora que trabalha muito para ter as características que tem no jogo. Ser uma jogadora rápida, agressiva e trabalhadora, que gosta do que faz. Muitas vezes estamos com os olhos nos objetivos e que estamos todas a lutar pelo mesmo e depois há coisas que ficam para trás. Quero ser lembrada como uma jogadora que fez o seu espetáculo com muito trabalho, dedicação e muito amor por aquilo que faz.