Opinião: "Janela para 2026"


Presidente do Sindicato dos Jogadores e a reabertura do mercado de transferências.

No primeiro artigo de opinião de 2026, publicado no jornal Record, o presidente do Sindicato dos Jogadores, Joaquim Evangelista, analisa a realidade do mercado de transferências em Portugal e as práticas existentes: 

"Está reaberta a janela de inscrições com contrato de trabalho desportivo nas competições profissionais e não profissionais. Perante inúmeras medidas programáticas que pretendem impactar o futebol português, importa ter em conta a realidade no terreno e os aspetos em que é necessário atuar entre os vários patamares competitivos.

Os mecanismos de licenciamento e os controlos salariais ao longo da época vieram trazer maior rigor na fiscalização, mas não resolveram todos os problemas. Existem clubes em dificuldades financeiras, a levar os prazos para cumprimento ao limite e a procurar acordos de diferimento das obrigações com os jogadores, ou pressionando-os, em função do seu estatuto remuneratório e da importância que assumem na equipa, para acordos de rescisão antecipados.

Continuamos a assistir a demasiados casos de atletas afastados ou colocados à parte, como forma de pressão, práticas enquadradas na lei como ilícitas, mas sobre as quais continuam a existir poucos mecanismos regulamentares dissuasores. Nas competições não profissionais existe, ainda, um grupo significativo de falsos amadores, isto é, atletas que mantêm este estatuto federativo, mas fazem do futebol a sua atividade exclusiva e auferem, por essa via, uma remuneração que é a sua única fonte de rendimento. Para estes, a precariedade é evidente, alvos de incumprimento salarial, dispensas a meio da época e da utilização da carta de desvinculação como vantagem para anular qualquer medida jurídica que planeiem utilizar para a reivindicação dos seus direitos.  

Recebemos relatos de uma enorme imprevisibilidade na ação de alguns investidores, que adquirem o controlo formal ou informal de sociedades desportivas e procuram fazer a gestão financeira dos clubes sem grande escrutínio. Continua a não existir efetiva capacidade para lhes exigir a prestação de garantias financeiras que sustentem os salários e obrigações financeiras para com todos os que integram o projeto desportivo ao longo da época.

Enquanto existir um só caso de incumprimento, o sistema falha aos protagonistas e uma política desportiva que os coloque no centro deve começar por atuar sobre aqueles que não cumprem e jogam com esse incumprimento para usufruir de uma vantagem inaceitável em relação aos demais competidores. Haja competência, mas ausência de suporte e garantias por quem investe, ou haja incompetência e negligência na gestão, independente do que é investido, cabe a todos os agentes do futebol português uma maior atenção a estas matérias que comprometem carreiras, prejudicam os protagonistas e nos atrasam em relação ao pelotão de países com modelos de desenvolvimento que queremos alcançar."

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