“Ter jogado em todas as divisões deu-me algo que não tinha”


Aos 25 anos, Tamble Monteiro é o capitão do Portimonense.

Tem apenas 25 anos, mas já é o dono da braçadeira do Portimonense. Motivação não lhe falta para incentivar os colegas, tendo a experiência de já ter jogado em todas as divisões nacionais, apesar da tenra idade.

Tamble Monteiro entende que há jogos a mais entre os clubes que participam nas competições europeias e revela que já está a pensar no que vai fazer para lá do futebol.

Quando é que foste designado pela primeira vez como capitão de equipa?
Aqui, no Portimonense.

No caso do Portimonense, foste escolhido como capitão pelos jogadores ou pelo treinador?
Fui escolhido pelo treinador, Tiago Fernandes.

Quais são as características que um capitão deve ter?
Liderança, principalmente, ter respeito tanto no jogo como pelos colegas e adversário, aquela garra e vontade de demonstrar isso aos meus colegas de equipa, ética e comprometimento. Acho que é um conjunto de coisas que um capitão deve ter.

Que valores transmites a quem chega ao clube?
Tento mostrar os valores que o clube quer para um jogador e que eles sejam muito bem recebidos no Portimonense, porque é um clube que recebe bem as pessoas e os jogadores. Tento demonstrar isso para que se sinta confortável e inserido no grupo, para nos poder ajudar.

Há algum capitão em que te inspires?
Gostava muito do Puyol. Sempre foi um capitão que gostava de ver dentro de campo, pela garra que demonstrava, pela forma como trabalhava dentro de campo e como era fora de campo. Hoje, gosto da postura do Van Dijk, tanto dentro como fora de campo. São exemplos em que me revejo.

“O facto de estar tão lá em baixo e ter de chegar cá acima não me fez dar passos muito grandes e fui muito paciente.”

Alguma vez precisaste de chamar um colega à atenção, enquanto capitão de equipa?
Chamar à atenção penso que não, mas dentro de campo tento sempre puxar por eles e motivá-los. Por exemplo, no jogo com o Benfica B, tivemos dois guarda-redes expulsos, teve de ir um central para a baliza e aí senti que fui muito importante para transmitir dentro de campo o que o mister queria. Era um jogo muito complicado, acabámos por vencer, a equipa esteve muito bem e senti que fui muito importante para motivar a equipa.

Aos 25 anos já és capitão de equipa. Apesar de não teres a experiência dos jogadores mais velhos, a tua juventude pode ser uma influência boa enquanto líder do grupo?
Acredito que sim, porque além de ser jovem e ter a idade que muitos deles têm, demonstro garra, ambição dentro de campo e respeito pelos outros fora de campo. É bom verem o Tamble dessa maneira, alguém que sabe perder e ganhar, mesmo não gostando de perder e é assim que gosto que me vejam.

Foste eleito pelo Sindicato como o Melhor Jogador dos dois primeiros meses da época da Segunda Liga. O que significa para ti essa distinção?
É sempre muito bom porque não é fácil ser jogador. Muitas das vezes damos o máximo dentro de campo e as coisas não saem. Quer dizer que o meu esforço e dedicação está à vista de muita gente e não só dos que me veem treinar todos os dias. Não temos de demonstrar nada a ninguém, porque estamos a fazer o que gostamos, mas ao mesmo tempo queremos estar num patamar superior e é sempre bom receber um prémio destes.

Quem é que te incentivou a ser jogador de futebol?
Desde pequenino que sempre andei com uma bola nos pés. Sempre tive essa chama e depois de ver jogadores como Cristiano Ronaldo, Messi, Neymar, mais tarde ou mais cedo sabia que queria ser jogador de futebol.

O teu percurso no futebol português foi feito em ascensão, desde os regionais até à Primeira Liga, de forma progressiva. Teres passado por todas as divisões nacionais fortaleceu-te como jogador?
O que mais senti foi que ter jogado em todas as divisões deu-me algo que não tinha. Foi uma aprendizagem muito grande ter passado por todos esses patamares, porque conheci todas as realidades do futebol. O facto de estar tão lá em baixo e ter de chegar cá acima não me fez dar passos muito grandes e fui muito paciente. Temos de ir passo a passo e aprender com os erros. A paciência é uma virtude que ganhei.

Foto: IMAGO/Avant Sports. 

“Ainda estou nos meus primeiros passos e a poupar para o que conseguir fazer mais tarde, mas já me ando a informar sobre fundos de baixo risco e imóveis. É algo que estou a pensar fazer.”

O Sindicato tem insistido na importância de os jogadores continuarem os estudos. Tens alguma formação superior?
Tenho o 12.º ano, não tenho ensino superior, mas é algo que gostava. Sei que a carreira de futebolista é curta e temos de preparar o futuro. Acho bem os jogadores tirarem um curso e é algo em que estou a pensar. As pessoas à minha volta estão sempre a aconselhar-me a tirar um curso para precaver o meu futuro.

Outra das preocupações do Sindicato é a literacia financeira. Tens algum investimento ou estás a pensar fazê-lo, para acautelar o futuro pós-carreira?
Acho que todos os jogadores deviam pensar em investir num futuro próximo. Ainda estou nos meus primeiros passos e a poupar para o que conseguir fazer mais tarde, mas já me ando a informar sobre fundos de baixo risco e imóveis. É algo que estou a pensar fazer. Gostava de estudar sobre literacia financeira porque acho que é muito importante para o futuro de um jogador.

Alguma vez estiveste numa situação de desemprego?
Não.

A carreira de um jogador é feita de momentos altos e baixos. Nos momentos mais negativos, se os tiveste, recorreste a apoio psicológico para dares a volta?
Quando cheguei ao Portimonense tive uma fase muito má em termos de lesões, porque foram várias na mesma altura. Chegou um momento em que a minha cabeça estava complicada porque gosto de ser alegre e não estava bem. Senti que devia procurar ajuda e tive um mental coach que me ajudou imenso e soube pegar nas minhas características como pessoa e ultrapassar essa fase. Foi o melhor que fiz. Quando voltei a jogar, qualquer dor que sentia pensava que era um grande problema e o mental coach ajudou-me muito.

Tem havido um aumento do número de lesões entre os jogadores que, no caso dos que participam em mais competições, se têm queixado do excesso de jogos. Também sentes que há jogos e competições a mais, entre a elite?
É um tema que se debate muito ultimamente. Na Segunda Liga não existe isso, mas lembro-me do Pedri, por exemplo, que há um ano queixava-se de ter feito cerca de 60 jogos numa época. Acho que é muito jogo para um atleta, principalmente para o físico, que é a nossa arma. É um risco grande, mas se estivermos num clube que nos dê as condições necessárias para fazer esses jogos, não há qualquer problema. Quanto às férias, é sempre bom para o jogador descansar a mente porque às vezes as épocas não são como queremos e, quando assim é, precisamos de uma escapatória.

Quais são os teus maiores sonhos?
O meu maior sonho é jogar na Premier League, porque é uma liga que sinto que posso lá chegar. Vejo-me a jogar lá e é a melhor do mundo. Quando estou em casa vejo aquela intensidade, o ambiente, tudo o que está na Premier League e é o meu maior sonho.

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