Opinião: “As lesões e o seu contexto”
Presidente do Sindicato dos Jogadores e as consequências da carga excessiva de jogos.
No artigo de opinião desta semana, publicado no jornal Record, o presidente do Sindicato dos Jogadores, Joaquim Evangelista, avalia as consequências do número excessivo de jogos nesta fase da época e contextualiza o aumento das lesões no futebol:
"Atualmente a recolha de dados e informações relacionadas com a performance dos atletas é feita ao pormenor, por estruturas cada vez mais profissionalizadas.
Fazem parte desta monitorização os indicadores de performance recolhidos em contexto de treino ou jogo, os registos do jogador com bola, incluindo o número de toques, ações realizadas e golos, o chamado “tracking” que mede as distâncias percorridas com dispositivos integrados para o efeito, a vigilância da saúde física e recolha de dados biométricos.
A nível internacional, discute-se cada vez mais o direito de acesso e gestão destes dados pessoais pelo jogador, utilizados de forma indiscriminada e até cedidos a terceiros pelo empregador.
Seria de esperar que o tratamento de toda a informação recolhida, apoiado na investigação científica e tecnologias existentes, ajudasse a prevenir o crescimento do número de lesões graves que se tem verificado na elite do futebol.
Sendo certo que o risco associado a uma lesão traumática não pode ser eliminado do jogo, a gestão dos calendários competitivos tem uma importância decisiva para os jogadores, cujo cansaço acumulado e impossibilidade de fazer uma recuperação adequada entre jogos, ou entre épocas, acarreta uma significativa ameaça à sua saúde física e mental.
Os relatórios existentes sobre sobrecarga, nomeadamente aqueles que a FIFPRO produz no final de cada época desportiva, ajudam a compreender o aumento das lesões. Contudo, existem outros fatores importantes para a sustentabilidade do futebol que têm de ser estudados, com as respetivas recomendações a ser refletidas em regulamentação desportiva e contratos coletivos de trabalho.
Dois aspetos essenciais para os jogadores são o impacto da sobrecarga no desenvolvimento físico dos jovens e na longevidade das carreiras ao mais alto nível. A somar a tudo isto, se aumentam as lesões e diminui o rendimento em campo, temos uma ameaça séria à qualidade das performances que alimenta toda a indústria.
Existem sinais animadores no contexto da UEFA, que dão prioridade ao tema na investigação a ser desenvolvida por peritos, com independência e capacidade para verter as suas conclusões em recomendações concretas.
Portugal, que apresenta em vários patamares competitivos o problema inverso, ou seja, falta de densidade competitiva necessária para potenciar receitas e desenvolver jogadores, depara-se com este problema nos principais clubes, desmistificando a ideia de que só acontece nas principais ligas ou se trata de um simples capricho dos atletas. Quando o problema se torna tão grave que afeta todos, é preciso agir."



