“Vir a ser médica veterinária é o sonho, além do futebol”


Bárbara Lopes, jogadora do Torreense e da Seleção Nacional, está a concluir o ensino superior.

Tem 24 anos, é defesa central e joga no Torreense, tendo-se estreado no último ano pela Seleção Nacional.

Bárbara Lopes vive atualmente o sonho de ser futebolista profissional, mas tem outro sonho no horizonte: ser médica veterinária.

Sempre quiseste ser jogadora de futebol ou passou-te pela cabeça fazer outra coisa?
Eu sabia que adorava futebol, mas acho que esse sonho de ser jogadora veio um bocado depois, antes veio ser veterinária. Quando comecei a jogar futebol, em criança, não achava ser possível vir a ser jogadora profissional porque não tinha a noção que em Portugal havia essa possibilidade. Era muito inocente e nem sabia que podia ser chamada à Seleção Nacional.

Quem é que te incentivou para a prática do futebol?
Foram o meu irmão e o meu primo. À frente da minha casa havia um campo de futebol em pedra e comecei a jogar com eles e com as raparigas da vizinhança. Foi assim que nasceu o gosto.

Nasceste em Santa Maria da Feira e vieste para Lisboa com 16 anos, para jogar no Sporting. Mudaste para Lisboa por causa dos estudos ou pelo sonho do futebol?
Quando surgiu a oportunidade de vir para Lisboa foi no sentido desportivo, para integrar a equipa do Sporting, mas sempre com a ideia de poder estudar em Lisboa. Sabia que havia cá uma faculdade de medicina veterinária e que tinha um leque de opções para escolher.

Ainda estás a estudar medicina veterinária ou já terminaste o curso?
Ainda estou a estudar. É o que quero fazer além do futebol.

Ainda só tens 24 anos, mas já tens um plano B, com o curso em medicina veterinária. Quando terminares a carreira, vais exercer medicina?
Sim, só vejo isso. Vir a ser médica veterinária é o sonho, além do futebol.

A escolha do curso deve-se ao gosto por animais? Tens animais de estimação?
Esta paixão nasceu comigo. Sempre tive o contacto próximo com os animais. Tinha um gato que cresceu comigo, que me foi oferecido pela minha tia para ir ao dentista. Sempre adorei os gatos e os animais, apesar de não ter ninguém na família que seja veterinário e foi um gosto que começou cedo e a afirmar-se ao longo dos anos.

“É importante reforçar a ideia de que podemos jogar e ter outros objetivos além da carreira desportiva, porque a jogadora tem de pensar além e é importante esse trabalho de sensibilização do Sindicato.”

Além da licenciatura, tencionas prosseguir os estudos com mestrado, doutoramento ou fazer alguma pós-graduação?
O curso de medicina veterinária tem um mestrado integrado. São cinco anos de estudos, depois tenho o estágio curricular no sexto ano e direciono o estudo para o que mais gostar, pode ser animais de companhia, de quinta, exóticos, selvagens. Sinto-me mais confortável por animais de companhia, mas a ideia de tratar de um cavalo ou vaca é um pouco assustador, mas algo entusiasmante e não fecho portas. Adoro os gatos e os cães, mas entusiasma-me muito saber que é possível trabalhar no local com um animal tão grande.

Qual a importância da educação?
Acho que, além de ser muito importante no sentido de ter um plano B porque no futebol existem muitas variantes que podem decidir a duração da carreira. É importante no sentido em que tira um pouco a pressão de ter algo extrafutebol que nos possa manter motivados e que não seja só o futebol a nossa vida, porque também há um trabalho fora de campo que exige muito da atleta, mas pensar noutras coisas é muito importante para manter a motivação no dia a dia, porque há muita coisa além do futebol e isso é muito importante para mim.

As delegadas, Carla Couto e Micas, nas visitas que fazem aos clubes apresentam o plano do Sindicato para a educação. Como é que vês o papel do Sindicato na divulgação da importância da educação na carreira das jogadoras?
Acho que é importante reforçar a ideia de que podemos jogar e ter outros objetivos além da carreira desportiva, porque a jogadora tem de pensar além e é importante esse trabalho de sensibilização do Sindicato. É muito bom manter a jogadora motivada e pensar noutras coisas e é importante pensarmos a longo prazo.

Com o crescimento do futebol feminino, achas que as jovens jogadoras vão focar-se mais no futebol e descurar os estudos ou continuar a conciliar as duas coisas?
Acho que é muito possível conciliar as duas coisas. Penso no futebol como um plano A sustentável, é a minha profissão, sou jogadora profissional e estudo, mas o futebol dá-me boas condições de vida e consigo ter uma vida que corresponde às minhas necessidades. Acho que já é possível priorizar o futebol e ir estudando como algo extra, para o nosso futuro.

Estás no Torreense desde 2023 e já ganhaste uma Taça de Portugal e uma Supertaça pelo clube. Foi a melhor decisão vires para Torres Vedras?
Foi sempre a subir porque quando cá cheguei eram os meus primeiros anos de futebol sénior. Estava sem muitas expectativas, a ganhar o meu espaço no futebol sénior e as coisas foram acontecendo sem estar à espera. Trabalhava muito para isso porque gosto do que faço e de jogar futebol. Desde então tem sido muito positivo. A Taça e a Supertaça, até à data, foram o ponto alto da minha carreira. Foram dias muito felizes e são conquistas que ficam para sempre. Vou sempre lembrar-me da primeira Taça e Supertaça no Torreense, se calhar contra todas as expectativas, e estou muito contente por cá estar.

“Sempre que tenho a oportunidade de estar na Seleção sinto um nervosismo positivo do peso da responsabilidade.”

Qual é o significado de ganhar uma Taça de Portugal?
Acredito muito que qualquer equipa que jogue uma final tenha um certo nervosismo e ninguém esperava que ganhássemos. Nós acreditámos muito, mas por ser tão inesperado acho que foi ainda mais incrível aquilo que vivemos. Foi o dia mais feliz da minha vida. Passa uma época que já tinha sido positiva e ganhar ao campeão nacional e à melhor equipa de Portugal até à data se calhar demonstra que merecemos estar mais vezes nas decisões.

Em junho do último ano fizeste a estreia pela Seleção A no jogo com a Nigéria. Foi o ponto alto da tua carreira?
Foi um verão em cheio. Sempre que visto a camisola da Seleção fico muito nervosa porque representar o país inteiro e estar no meio de tantas jogadoras do nosso país é um peso gigante, mas bom, porque estou a fazer o que gosto, a jogar futebol junto das melhores jogadoras, dos meus ídolos, e estar a aprender com elas é uma oportunidade incrível. Sempre que tenho a oportunidade de estar na Seleção sinto um nervosismo positivo do peso da responsabilidade.

Como é partilhar o balneário com as jogadoras que são as tuas referências?
Tento recolher todas as informações possíveis e aprender muito com elas. Vou considerar o melhor conselho do mundo porque o que têm para me dizer acrescenta muito como jogadora e pessoalmente. Fico muito nervosa de estar com elas, mas gosto muito de aprender com elas.

Qual é o teu maior sonho no futebol?
Ganhar a Champions League. Podia ser pelo Torreense, ficava contente. Chegar aos grandes da Europa e espero que o Torreense um dia o seja.

Que conselhos deixas às jovens jogadoras que estão a dar os primeiros passos no futebol?
Nunca esqueçam o porquê de começarem a jogar futebol. Façam-no e venham treinar todos os dias, por amor ao desporto.

Como é que gostarias de ser recordada no futebol, daqui a 20 anos?
Gostava de ser recordada como uma das jogadoras portuguesas que já ganhou a Champions League e ser lembrada como alguém que gosta do desporto. Isso é o mais importante para mim.

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