Opinião: "Investimento estrangeiro: entre a oportunidade e o risco"
Presidente do Sindicato dos Jogadores e o escrutínio à entrada de capital externo nas sociedades desportivas.
No artigo de opinião desta semana, publicado no Record, o presidente do Sindicato dos Jogadores, Joaquim Evangelista, analisa o papel do investimento estrangeiro no futebol português, sobretudo ao nível amador:
"Este sábado realizou-se a Cimeira de Presidentes da FPF e o tema central, por iniciativa do Sindicato dos Jogadores, foi o papel do investimento estrangeiro no futebol português, sobretudo no futebol amador. Foi este o contributo que levei a debate: enquadrar o tema com equilíbrio, reconhecendo a sua importância, mas enfrentando com clareza riscos já evidentes no terreno. O investimento é essencial e o futebol português precisa de capital, conhecimento e abertura ao exterior. O desafio não está em aceitar ou rejeitar o investimento, mas em garantir que este contribui de forma efetiva para o desenvolvimento sustentável do sistema.
O diagnóstico está feito: o sistema revela fragilidades estruturais. Opacidade na titularidade efetiva das sociedades desportivas, com recurso a interpostas pessoas e controlo indireto por agentes ou grupos económicos. Ausência de due diligence: inexistência de avaliação competente da idoneidade e verificação da real capacidade financeira de quem investe. Falta de garantias que assegurem a execução dos investimentos anunciados, projetos de curto prazo, centrados na transação de jogadores e no retorno imediato, apesar das parcas receitas que resultam diretamente da competição.
Desinvestimento na formação, nas infraestruturas e na ligação às comunidades. Riscos reputacionais, com possíveis ligações a práticas ilícitas e gritante falha institucional de supervisão, com ausência de validação preventiva dos projetos de investimento.
Os casos recentes confirmam um padrão que já não pode ser ignorado: insolvências e liquidações de SAD’s, descidas administrativas, incumprimento salarial generalizado, abandono de projetos por investidores ou respetivos testas de ferro. O impacto é transversal, na distorção da competição, desproteção de jogadores e demais trabalhadores, quebrando a confiança no sistema. Tudo isto com prejuízo para o desenvolvimento do talento nacional e risco reputacional para o futebol português.
Que soluções apresenta o Sindicato dos Jogadores? A resposta deve qualificar o investimento e não limitá-lo, por isso propomos algumas medidas estruturais:
- Criação de entidade de supervisão com poderes de avaliação, aprovação e sancionamento.
- Avaliação prévia obrigatória de investidores e projetos de investimento.
- Prestação de garantias financeiras no acesso à competição, executada em caso de dívidas salariais e falha nas obrigações essenciais.
- Regulação da multipropriedade de clubes.
- Criação de base de dados de investidores, cruzando dados nacionais e internacionais.
- Constituição de fundo de proteção de trabalhadores das SAD’s.
- Formação e certificação de dirigentes em matérias relacionadas com a captação de investidores.
- Reforço do papel das Associações Distritais e Regionais na monitorização.
- Enquadramento e aplicação de sanções desportivas eficazes.
Regular não é afastar investimento. É garantir que apenas entra quem acrescenta valor, protege os trabalhadores e contribui para a estabilidade e credibilidade do futebol em Portugal."



