Dos relvados para o jiu-jitsu
Abel Camará deixou as chuteiras e soma títulos nacionais nos tatamis.
Depois de ter deixado os relvados, em 2024, Abel Camará dedicou-se a uma nova paixão: o jiu-jitsu.
Aos 36 anos, o ex-internacional guineense e agora atleta da Academia 21 The Legacy já soma várias medalhas nacionais na nova modalidade e promete não ficar por aqui.
Como é que o jiu-jitsu surgiu na tua vida?
O jiu-jitsu surgiu na minha vida após o final de carreira, que terminou no Oriental e estava sempre todas as manhãs a ir para o ginásio. Já tinha alguns amigos que faziam jiu-jitsu e sempre tive curiosidade. Quando experimentei na primeira semana foi uma boa sensação e estou até hoje no jiu-jitsu.
Há quanto tempo estás no jiu-jitsu?
Há cerca de um ano e dois meses, sensivelmente. Posso dizer que, após o futebol, tornou-se o meu segundo vício.
Se agora tivesses de escolher entre o futebol e o jiu-jitsu, qual é que escolherias?
O futebol vai ser sempre o futebol, uma grande paixão, não há sombra de dúvidas, mas se há algo que consegui aprender no jiu-jitsu é aquela adrenalina e ansiedade que temos antes de entrar em campo. Foi o mais perto que arranjei foi no jiu-jitsu, entrar no torneio, vais apanhar o adversário e não sabes o que ele vai fazer, porque nunca o viste na vida, e acabas por entrar num espaço cego e tens de meter em prática o que tens vindo a treinar e estar sempre confiante.
Porquê a Academia 21 The Legacy para praticares este desporto?
A Academia 21 fica na minha zona, porque moro em Queluz, e já venho acompanhando o projeto há muito tempo e sempre tive curiosidade e interesse no trabalho deles. Quando terminei o futebol, acabei por falar com eles, explicaram-me o que era o jiu-jitsu e é engraçado porque na minha graduação de faixa azul disseram-me que ia ser mais um, porque muitos jogadores entram no jiu-jitsu e passado um, dois meses desistem e na minha graduação acabaram por me dizer que ia ser mais um que ia desistir e, afinal de contas, estou aqui até hoje.
Levas isto como um hobby ou encaras o jiu-jitsu de forma séria?
Encaro isto de forma séria porque no que eu entro, entro com a postura de querer evoluir e conquistar. Se fosse só um hobby eu não entrava nos torneios, mas estar aqui e não entrar nos torneios é a mesma coisa que no futebol estar a treinar e não jogar ao domingo, portanto, levo isto mesmo a sério.

“Quando terminarmos a carreira temos de ter a consciência tranquila e que fizemos tudo. Se sairmos do futebol com a sensação que podíamos ter dado mais, vamos carregar essa mágoa até ao fim da vida.”
Para quem esteve tantos anos ligado ao futebol, continuar a praticar desporto é essencial para te sentires bem?Sim, sem dúvida. Ainda há tempos falava com alguns colegas que também terminaram e sentem-se um bocado perdidos, em busca da chama que tinham quando jogavam. Eu encontrei essa chama no jiu-jitsu e faz-me muito bem fisicamente e principalmente mentalmente, porque, isto é o mais perto que temos do balneário, seja o respeito, quando estamos a treinar não há brincadeiras, o mais graduado fala e temos de ouvir, é como se fosse o capitão, e gosto muito do ambiente aqui.
A transição dos relvados para os tatamis foi difícil?
Foi. Posso dizer que desde que terminei, mesmo com os amigos fui jogar à bola. Tive imensas saudades, vi imensos jogos meus em que estive bem, para matar saudades, mas com o passar do tempo fui-me habituando e hoje sinto falta do futebol, mas já estou mais realizado e de consciência tranquila. Quando tinha 19 anos, o mister Rui Jorge disse-me uma coisa importante que levo até hoje. Nós quando terminarmos a carreira temos de ter a consciência tranquila e que fizemos tudo. Se sairmos do futebol com a sensação que podíamos ter dado mais, vamos carregar essa mágoa até ao fim da vida.
Que pontos existem em comum entre o futebol e o jiu-jitsu e quais as principais diferenças?
Tem muitas semelhanças porque nós temos regras no balneário e temos regras no tatami. Não podemos entrar no tatami sem pedir autorização, quando o mestre fala temos de ouvir, ele dá todas as técnicas para todos, depois cada um observa e impõe no seu jogo. Eu posso ver uma técnica que, tendo em conta o meu tamanho e peso não me vai ajudar, e ver outra que me vai ajudar, e após o treino metemos em prática. A diferença que vejo entre o atleta do jiu-jitsu e do futebol profissional é a parte mental. Se não tivermos uma mentalidade forte, algo que já trazia do futebol, porque quando começas tens a faixa branca e não sabes nada, é como se estivesses a aprender a andar e se não tiveres a capacidade de absorver e ter a sensação de que vais estar ao nível dos melhores, tens muitas dificuldades. Se o mental não estiver bem as coisas não saem, estão muito bem no treino e na competição as coisas não saem.
Do futebol para o jiu-jitsu trazes o espírito vencedor, tendo em conta que já conquistaste algumas medalhas de ouro nesta nova modalidade. Continuas a manter essa vontade de querer vencer e este espírito competitivo, seja onde for?
Sim, sempre. Venho aqui todas as manhãs com o objetivo de deixar a minha marca no jiu-jitsu. Não é algo obsessivo, mas algo que vai crescendo comigo e que me vai deixando com a chama acesa, porque se levar isto como um hobby ou de forma leviana, não venho treinar todos os dias, ando aqui com a sensação de estragar o treino dos meus colegas porque não estou a levar de uma forma tão séria e como sempre no futebol e até hoje continuo a levar de forma séria e espero conquistar mais medalhas.
Tens conhecimento de mais ex-jogadores que pratiquem este desporto?
Sim. Tive conhecimento do Bosingwa, que curiosamente também é faixa azul. Sei também do Sílvio, do Nani, mais não sei, mas mesmo o meu colega Pelé viu-me entrar para o jiu-jitsu e ele entrou para o boxe, ou seja, nós todos acabamos por entrar nas artes marciais no sentido de ter aquela adrenalina e até agora tem corrido bem.

“O que me dá mais prazer no final da minha carreira é poder ir buscar e deixar os meus filhos na escola. Essa é a minha maior vitória.”
E ao nível de medalhas no jiu-jitsu, o que já conquistaste?
Já ganhei algumas medalhas, mas as mais importantes foram o campeonato nacional em 2025, estava super nervoso e ganhei. Posso dizer que tive alguma sorte porque não estava com o meu jogo bem preparado e alinhado, depois acabei por ficar em segundo lugar no Europeu, é a medalha que tenho mais orgulho e agora o nacional português em 2026 são as três medalhas, tirando as outras que vou conquistando. Mas quando vem uma grande competição, tento fazer um ou dois torneios para chegar bem ao campeonato. Sinto orgulho em todas as medalhas, mas as conquistas são diferentes porque no futebol dependemos da equipa. Aqui também dependemos para chegar bem ao torneio, mas quando chegamos ao tatami somos nós e aquilo que aprendemos e temos de fazer, ou seja, são medalhas que saem mais do meu suor e são mais difíceis de conquistar, mas tenho o maior orgulho em todas.
De momento tens o cinturão azul, uma cor que te diz muito, atendendo aos vários anos que passaste no Belenenses. Tens o objetivo de chegar ao cinturão negro?
Não sei. Para chegar ao cinturão negro são precisos sete anos, é muito tempo, mas não descarto essa possibilidade. Chegar ao cinturão azul foi complicado porque quando recebes esse cinturão percebes que evoluíste e fazes a retrospetiva de tudo o que passaste desde que entraste até ao cinturão azul, mas a maior taxa de desistência no jiu-jitsu é no cinturão azul, mas sei que não vou parar no cinturão azul. No cinturão azul começamos a apanhar os faixas brancas, que querem chegar ao cinturão azul, vêm com a vontade toda, apanhamos os faixas roxas com mais anos que nós e parece que estamos aqui, o nosso jogo não sai e estamos estagnados, mas estamos a evoluir, porque no cinturão azul nós começamos a ver qual é o nosso tipo de jogo até chegar à faixa preta. Se estivermos aqui e sempre a ganhar, parece que ou os atletas da academia não são bons ou nós achamos que somos muito bons, mas não, temos de estar sempre a evoluir, a perder e a ganhar, mas sabemos para onde queremos ir.
Para quem não percebe muito de jiu-jitsu, em que consiste esta modalidade e o que é preciso para chegar ao nível máximo, que é o cinturão preto?
Temos de ter espírito de sacrifício, porque não é fácil estar aqui no início e ver atletas muito evoluídos. É preciso muita força de vontade, foco e disciplina e acabamos por abraçar este desporto com muito amor. Há aqui miúdos de 23 anos que já são marrons, abaixo do cinturão preto, e quando eles falam eu tenho de os ouvir. Posso ser faixa azul, mas tendo em conta a bagagem que trouxe do futebol, já sou faixa preta, porque tenho uma grande experiência de vida, dos anos todos no futebol. O bom disto é que quando um vai competir, vai quase a academia toda apoiar durante cinco minutos e vamos buscar forças onde não temos e no final só temos de agradecer. O slogan ‘onde vai um vão todos’ aqui está bem assente.
Como é que está a ser a tua vida pós-futebol? Além do jiu-jitsu a que te tens dedicado?
Além do jiu-jitsu, tenho a minha empresa de TVDE e estou a tentar crescer cada vez mais no ramo imobiliário, mas o que me dá mais prazer no final da minha carreira é poder ir buscar e deixar os meus filhos na escola. Essa é a minha maior vitória. Tenho muito mais tempo para eles, o meu filho agora joga futebol na escola do Nani, a minha filha está na ginástica e poder ir aos saraus com ela é a maior riqueza que tenho.
Aos jogadores que estão em vias de terminar a carreira ou que terminaram recentemente, como é o teu caso, queres deixar algum conselho em especial?
O conselho que dou aos que estão a terminar é para desfrutarem, porque sabemos que passa rápido, e saiam de cabeça erguida, porque essa é a maior vitória que podem ter. Aos que terminaram arranjem um hobby, não fiquem gordos e tentem sempre estar ligados ao desporto, seja no ginásio ou em artes marciais, porque é muito bom para a saúde.



