Opinião: "Notícias além-mar e por cá"
Presidente do Sindicato dos Jogadores destaca a participação lusófona no Mundial e o licenciamento para a nova época em Portugal.
No artigo de opinião desta semana, publicado no jornal Record, o presidente do Sindicato dos Jogadores, Joaquim Evangelista, destaca a participação de Portugal e Cabo Verde no Mundial 2026 e o licenciamento dos clubes para a nova época no futebol português:
"Independentemente do que aconteça, o Campeonato do Mundo de 2026 ficará marcado pela participação de Seleções que, noutro formato mais restrito de acesso à prova, teriam poucas chances de se apurar. Cabo Verde, pela afinidade particular que nos traz, é o melhor exemplo de um povo irmão, apaixonado pelo futebol, que vive por estes dias o sonho de passar a fase de grupos. Portugal disputa a liderança do grupo com o apuramento selado, o que é igualmente demonstrativo das hipóteses alargadas de ultrapassar a primeira fase.
Do ponto de vista económico e da democratização do futebol, ao trazer histórias maravilhosas de 'David contra Golias', nada a apontar, mas este alargamento e outros que se perspetivam deve ser visto, igualmente, à luz do frágil equilíbrio que a compatibilização entre competições internacionais e nacionais deve manter.
A verdade é que além do formato e algumas regras de jogo, pouco mais é objeto de reflexão. Ainda não conseguimos resolver, no cruzamento dos calendários internacionais e nacionais, o problema de ter atletas, alguns dos melhores jogadores do mundo, com excesso de competição e uma carga que não lhes permite, entre outras coisas, recuperar adequadamente entre provas, entregar a melhor performance, ter o descanso necessário ou fazer pré-épocas adequadas, tornando a transição de época apenas uma extensão da anterior.
Será este modelo sustentável? Que impacto e formas de mitigação encontraremos para proteger o outro lado da pirâmide, ligas inferiores que perdem visibilidade, competições que deixam de ter relevância, jogadores que carecem de mais oportunidades competitivas? Um tema incontornável para a plataforma de diálogo social que FIFA e FIFPRO irão construir.
Por cá, estamos prestes a começar a pré-época 2026/27 e são vários os focos de conflito e incumprimento salarial, da 2.ª Liga ao Campeonato de Portugal, adensando as dúvidas sobre o licenciamento de clubes que não apresentam, estruturalmente, garantias de sustentabilidade.
Os velhos chavões de que se aguarda um investidor, o desbloquear de uma verba ou qualquer espécie de acordo, assente no princípio de que o jogador tem de abdicar dos seus direitos, ou as mudanças diretivas, que servem frequentemente de desculpa, convocam-nos para a discussão de sempre, sobre o rigor da fiscalização, a eficácia das sanções e a proteção do futebol português.
Que bom seria ver aumentar o nível de exigência dos clubes e a coerência na sua ação, sem depender do lugar em que terminam na tabela classificativa."



