Opinião: "Tráfico e as suas ramificações"
Presidente do Sindicato dos Jogadores e a defesa da dignidade humana.
No artigo de opinião desta semana, publicado no jornal Record, o presidente do Sindicato dos Jogadores, Joaquim Evangelista, assinala o Dia Europeu do Combate ao Tráfico de Seres Humanos:
"Um dos maiores problemas das sociedades atuais é a desvalorização da dignidade humana, o desligar da responsabilidade que cada país tem em criar condições de segurança, liberdade e igualdade de oportunidades para todos aqueles que nele habitam ou escolhem viver.
O Dia Europeu de Combate ao Tráfico de Seres Humanos, que se celebra neste 18 de outubro, é um momento de reflexão, sensibilização e valorização daqueles que fazem a diferença no terreno. Ao longo dos últimos anos conheci as mais diferentes histórias de jovens atletas explorados em clubes ou academias, privados das promessas de um contrato de trabalho, alojamento digno e acesso ao patamar do futebol profissional.
Muitos trazidos ao engano, em esquemas de imigração ilegal e burlas que se alimentam da fragilidade e dos sonhos de pessoas que fazem uso do pouco que têm para garantir o acesso ao futebol na Europa.
A qualificação de um tipo de crime nunca poderá distinguir o nível de proteção que as vítimas merecem. Há caminho a percorrer, mas o endurecimento das medidas de fiscalização e o trabalho de articulação entre o desporto e organizações especializadas nesta temática tem feito a diferença.
Neste plano, não posso deixar de salientar o trabalho que é feito pelas equipas multidisciplinares e redes regionais de apoio a vítimas de tráfico, na identificação, acompanhamento, proteção jurídica e cooperação com diferentes organizações do setor social.
Hoje posso dizer que, contrariamente há uns anos, o Sindicato dos Jogadores não atua sozinho. A justiça, de forma mais lenta do que se desejaria, vai dando sinais positivos de condenação destes fenómenos de exploração, sendo o afastamento do sentimento de impunidade a primeira arma que o desporto deve utilizar para se proteger a si mesmo.
Enquanto tivermos novos casos a aparecer, jovens abandonados na rua e sem respostas cabais do Estado Português, falsos agentes e recrutadores que repetem as práticas ou investidores que utilizam o futebol para branqueamento de capitais e exploração de talento à custa das vulnerabilidades de clubes e competições, haverá tráfico humano para combater.
O apelo é o mesmo de sempre, a quem está próximo dos fenómenos, nos locais mais longínquos, é fundamental reconhecer os sinais de alerta. Uma denúncia atempada pode mudar vidas.
Nota final para reconhecer a importância da aprovação no Parlamento de apoios para atletas na maternidade, quer pela garantia de rendimentos durante o período maior quer pela estabilidade contratual garantida após a retoma, diminuindo a insegurança e a discricionariedade de um clube ou Federação nesta matéria. Um bom sinal dado pelo legislador, através de um conjunto de medidas com impacto direto na vida das praticantes."



