“Sou uma guerreira e acho que sou uma inspiração para muita gente”


Da paixão pelo futebol à luta contra o cancro da mama, Filipa Silva conta uma história de resiliência, fé e superação.

Filipa Silva partilha um testemunho marcado pela paixão pelo futebol, pela resiliência perante a adversidade e pela luta contra o cancro da mama.

A ex-jogadora destaca o papel fundamental de algumas pessoas e instituições no seu percurso, nomeadamente o Sindicato dos Jogadores, que a apoiou desde o primeiro momento.

A sua principal mensagem é clara: a prevenção salva vidas. Apela a mulheres e homens para estarem atentos aos sinais do corpo, realizarem exames regulares e colocarem a saúde em primeiro lugar.

Começaste a jogar futebol aqui, em Odivelas. Ser jogadora de futebol sempre fez parte dos teus sonhos?
 Sim, sempre fez parte dos meus sonhos, desde criança. Era uma coisa que eu me via a fazer e que gostava. Acho que já estava dentro de mim. Como eu digo sempre, acho que já nasceu dentro da barriga da minha mãe. Comecei com quinze anos. Jogava pelas juniores ao sábado e ao domingo jogava pelas seniores. Para mim era ouro sobre azul, porque uma menina de quinze anos a jogar pelas juniores e depois ser chamada pelas seniores ao domingo, senti ainda mais que tinha muito mais capacidades que se calhar as outras raparigas.

Na transição de júnior para sénior foste para a equipa feminina do Ponte Frielas. Foi uma mudança muito grande para ti passares a jogar só com raparigas?
Depois de estar aqui dois anos no Odivelas, convidaram-me para jogar no Ponte Frielas. Na altura tinha algumas internacionais e eu fui. Foi bastante positivo. Na altura, eu estava a viver em Portimão. Ficava lá durante a semana, vinha à sexta-feira para cá, para poder jogar e depois voltava no domingo.

Além do futebol, também praticaste futsal e futebol de praia. O desporto continua a fazer parte da tua vida?
Tive uma experiência no futsal. Fui com uma amiga para fazer uns treinos, tanto ao Benfica e depois fui para outro clube, que agora não me lembro, era na zona do Cacém, se não me engano. Fui lá, joguei, acho que foi um ano, se calhar nem chegou a um ano. Gosto de futebol de 11. Acho que futsal não é muito a minha praia, porque gosto de correr, de fintar e o futsal não me dá isso.

O futebol feminino tem tido uma grande evolução, quer ao nível profissional como amador. Como é que vês esta evolução, quais são as melhorias que destacas e os desafios para o futuro?
Quando eu comecei a jogar, não havia as condições que há agora. Não tínhamos nada. Jogávamos em pelado. Hoje há imensos campos de relvado e sintético. Têm outras condições. Posso referir, por exemplo, a parte da psicologia do desporto. Na altura, se calhar, eu poderia ter evoluído para melhor e mais, porque ter um psicólogo numa equipa, acho que faz todo o sentido e é bom para ajudar a atleta a crescer e a tentar melhorar. Em relação aos desafios, acho que temos estado com excelentes equipas, excelentes jogadoras, cada vez há mais jogadoras com bastante qualidade e acho que no futuro ainda vai haver mais jogadoras com bastante qualidade, e tanto cá em Portugal como fora. Mas estamos a falar em Portugal e acho que temos muito boas jogadoras.

Foi já enquanto jogadora de futebol de praia do Estoril que foste diagnosticada com cancro da mama. Como é que te foi diagnosticado?
Quando fui jogar futebol de praia para o Estoril já tinha sido operada ao cancro. E mesmo assim, eu disse que sim, porque também me queria distrair, estar com outras pessoas, fazer aquilo que amo, que é jogar à bola. Aceitei o convite, fui à Euro Winners e, mesmo cansada, porque fazer tratamentos de quimioterapia, de radioterapia, cirurgias, é um bocado cansativo e mesmo assim eu fui. Joguei os minutos que o treinador quis que eu jogasse, mas quando joguei, senti-me feliz. Estava ao pé do mar e acho que isso nos ajuda para quem tem o problema, estar ao pé da natureza, do mar, respirar, acho que isso faz muito bem.

“Apesar de ser uma história triste, é uma história bonita, porque dá para ajudar as outras pessoas a superar. Dá para transmitir às pessoas que o amor próprio também é importante. A doença vem-nos ensinar isso e também a ter empatia e mais calma.”

Qual foi a tua primeira reação quando soubeste que tinhas cancro da mama?
Eu descobri quando estava a tomar banho. Fiz a apalpação na axila e notei ali qualquer coisa diferente. Notei um caroço, mas eu pensava que poderia ser um quisto sebáceo, porque já tinha tido um e pensava que era isso. Mas eu fico sempre alerta quando aparece qualquer coisa, e então isso não me saiu da cabeça. Liguei para a linha de saúde 24, eles disseram para eu ir ao hospital para ver o que era. Fui sozinha e na altura deram-me uma medicação que não fazia sentido. Voltei para casa e nem quis tomar essa medicação, porque não fazia sentido. No dia seguinte fui à minha médica de família e ela disse para eu fazer a mamografia e a ecografia mamária. Fui fazer e a médica viu que tinha aqui qualquer coisa, mas não tinha a certeza. Fui depois novamente outra vez à médica de família e ela disse que era para eu fazer uma biópsia num hospital. Foi quando fui fazer a biópsia sozinha que veio o susto. Eu já estava mais ou menos com uma ideia, não tinha a certeza, mas quando fui fazer, pensei logo como a minha mãe faleceu de cancro. Eu pensei que fosse isso. E estar a olhar para a médica e a médica estar a olhar para mim, eu vi logo que as coisas não estavam bem. Foi uma médica muito cuidadosa e direta. Hoje há médicos que não são diretos e isso é mau. Prefiro que sejam diretos, que sejam frios naquilo que estão a dizer, do que estarem a esconder as coisas.

Sentiste medo, revolta ou até alguma dificuldade em aceitar aquilo que estavas a viver?
Parece que ainda estou aqui a viver isso hoje. Foi assustador. A médica até disse que eu estava apavorada, estava assustada, estava com medo, estava com tudo aquilo que se pode ter. Acho que ninguém gosta de receber um resultado desses, Mas como eu tenho tanta fé e acredito tanto em Deus, eu disse: "Eu vou ser forte, não por mim, mas também pela minha mãe", para dar essa alegria de que eu consigo ultrapassar as coisas e que eu vou estar aqui para contar esta história. Acho que apesar de ser uma história triste, é uma história bonita, porque dá para ajudar as outras pessoas a superar. Dá para transmitir às pessoas que o amor próprio também é importante, porque há pessoas que, lá está, não têm esse amor próprio, então a doença vem-nos ensinar isso e também a ter empatia e mais calma. Basicamente, a minha vida toda foi de medos e ansiedade.

O que foi mais difícil nos primeiros dias ou semanas após o diagnóstico?
Quando eu recebi a notícia, tinha um relacionamento que acabou. A pessoa deixou-me sozinha no momento mais importante. Se calhar a culpa até foi minha, não sei. Mas acho que desde que recebi o diagnóstico, eu caminhei sempre sozinha. Parece que as pessoas desapareceram. Como tinha essa força de pensar na minha mãe e ninguém gosta de morrer, tenho essa força e quero mais. Então eu caminhei sozinha. Queria uma palavra amiga e não tinha. Queria uma mensagem que acho que é o mais importante, um ‘bom dia, está tudo bem?’ Para mim bastava, porque alegra o dia de uma doente oncológica. É um momento frágil, então eu sempre estive a caminhar sozinha. Desde o diagnóstico até à fase final, eu sempre caminhei sozinha, sempre. Aliás, eu caminhei sempre sozinha ao longo de toda a minha vida. Acredito muito que há sempre um propósito na nossa vida. Se tu fazes o bem, recebes o bem. Eu acho que sempre fiz o bem, sou uma pessoa de bom coração. Vivi no simples, cresci no simples, sem nada. Acho que isso faz com que tenhas outra maneira de ver as coisas. Mas eu sempre fui buscar forças a Deus. Eu quero viver, quero estar aqui, quero fazer aquilo que gosto, porque tenho sonhos, sempre tive sonhos na minha vida. Se calhar, durante a minha vida, não deu para concretizar esses sonhos, como lá está, ser jogadora profissional era um sonho meu. Poder chegar à Seleção, consegui, mas depois a continuidade não se concretizou. Mas desde que tenha ido à Seleção, para mim já é um motivo de orgulho. Acho que toda a jogadora gosta de chegar a esses patamares. Como vivi no simples, sou grata. Não preciso de ter grandes coisas.

Como foi o processo de tratamento e de que forma mudou a tua rotina?
Eu fiz quimioterapia vermelha. Se não me engano, foram quinze sessões. Depois fiz mais doze de radioterapia. Depois, entretanto, fiz cirurgias. Lá está, quando fazemos quimioterapia e radioterapia, nós temos de estar mais tranquilos, em repouso. Saía de lá debilitada, cansada, mas mesmo assim, tinha forças. Muitas vezes, as pessoas diziam: "Filipa, tens de ir descansar". E eu não, eu não fazia isso. Eu ia dar voltas e voltas e voltas, passear sozinha.

Houve momentos particularmente difíceis durante essa fase? Como os superaste?
Sim, vomitava de vez em quando, tinha bastante sono, não tinha muitas forças, porque ver-me sem cabelo é complicado. Sem mama também é complicado. Mas eu lidei bem com isso, mesmo a cortar o cabelo. Não me custou, porque como tive sempre um estilo mais desportivo, não me custou. Custou-me um pouco olhar-me ao espelho e ver-me se mama. Mas acho que o mais importante é estar cá. Acho que quem estiver comigo, aceita-me como eu sou, senão não aceito menos do que isso. Depois de tudo o que passei, é o mínimo.

Quem foram os teus maiores apoios durante o processo de tratamento e recuperação?
Eu tive de aprender a separar muitas amizades. Há amizades de beber, há amizades de sair à noite, então eu tive de separar, mas o cancro ensinou uma coisa. Entraram muitas pessoas boas na minha vida, pessoas positivas, para me ensinar que me querem ver a crescer e que acreditam em mim. Também tenho de agradecer muito ao Sindicato dos Jogadores, porque o Sindicato ajudou-me bastante nessa altura em que tive a doença. Ajudou-me desde o primeiro minuto até hoje e tenho de agradecer. Sou muito grata a quem me ajuda e queria dar essa palavra ao Sindicato.

                             

“[Ter passado por esta doença] mudou tudo. A minha maneira de pensar, ter mais amor próprio, acreditar mais em mim e trouxe-me novas amizades, novos projetos, mais sabedoria e mais luz no meu caminho, mais fé.”

Existem características que o futebol te ensinou, como a resiliência, a disciplina ou a capacidade de superar adversidades, que tenham sido importantes nesta batalha?
O futebol ensinou-me muitas coisas. Fui uma menina muito tímida, um pouco reservada, mas era muito atrevida com a bola. O futebol ensinou-me, sobretudo, a estar em sociedade depois de ter passado por uma instituição, porque não tinha os meus pais. Deu-me maturidade, ter prazer naquilo que fazemos e conviver com pessoas porque isso depois acaba por soltar-nos um pouco. Como era tímida, fazia com que me soltasse um pouco. Se calhar, a pessoa que sou hoje, a pessoa que eu sou hoje deve-se ao futebol. Ter essa capacidade de cair e levantar. Correu mal ontem, vai correr bem amanhã. Então é isso que nós temos às vezes também nos jogos, a incutir aos miúdos: "Cais, levantas-te". Nem sempre as coisas correm bem. Vai haver momentos bons, vai haver momentos maus. Então é isso que às vezes temos de transmitir aos miúdos. Para eles poderem nas adversidades, nas frustrações, na tristeza, é isso que faz com que saibam crescer e se tornem boas pessoas e atletas. Acho que é isso.

Sentiste alguma incerteza em relação ao futuro no desporto depois de ter sido diagnosticada com a doença ou focaste-te logo em manteres-te ligada ao desporto noutra função, que não a de jogadora?
Eu sempre tive esse pensamento, será que vou deixar? E não, a minha cabeça dizia: "Não, Filipa, vais, mais uma vez". E era sempre assim, de ano para ano, porque as coisas nunca correm sempre bem. Acho que foi sempre mesmo assim na minha vida.

Tiveste apoio psicológico durante o processo de recuperação?
Quando recebi o diagnóstico, o hospital fez-me esse acompanhamento. A partir daí, tive sempre pessoas incríveis. Cada vez que vou ao hospital, perguntam-me como é que estou. Sempre que passo lá, falam-me, perguntam-me se estou bem, eu digo que estou e isso ajuda-me. Nunca esqueço as pessoas que me fazem bem e estou sempre com os pés bem assentes na terra. Sempre tive e sempre o farei.

Quando é que os médicos te disseram que estavas totalmente curada da doença?
Para ter cura do cancro da mama, o mínimo é cinco anos. Fez este ano em agosto, os cinco anos, mas ainda estou a ser acompanhada. A médica agora na última consulta disse-me: “Filipa, vamos ver se na próxima consulta vais ter alta." Mas é sempre um "se". Depois podem dar-me alta, mas se calhar vou ter de continuar a fazer a medicação. Faço uma injeção e o comprimido hormonal. Tenho de estar sempre a ser seguida. Porque isso tem a ver com as células. O cancro vai estar sempre lado a lado, é uma coisa que vai estar no meu currículo. Infelizmente, é assim, mas eu vejo de outra forma. Estou a fazer aquilo que gosto, estou aqui e bola para a frente.

Depois de teres passado por esta doença, a tua perspetiva sobre a vida mudou?
Mudou tudo. Mudou a minha maneira de pensar, mudou eu ter mais amor próprio, acreditar mais em mim, afastar-me de certas amizades, trouxe-me novas amizades, novos projetos, mais sabedoria e mais luz no meu caminho, mais fé.

“O cancro da mama existe tanto para a mulher como para o homem. Temos de prevenir e ver as coisas antes e depois, não é só depois.”

Realizaste um estágio como treinadora no Estrela da Amadora. Como correu essa experiência?
Fizeram-me um convite no Estrela da Amadora, para acompanhar a equipa feminina, mas depois surgiu a oportunidade de estar com os sub-12 do Estrela da Amadora, os miúdos. Estive com eles durante cinco meses e foi incrível. Desde que eu pisei o relvado, foi mesmo incrível. Eu gosto bastante de crianças, gosto mesmo bastante. Acho que, se calhar, é um bocadinho devido ao meu passado, não sei. Senti-me feliz, senti-me mesmo feliz. E depois foram surgindo os outros desafios.

Este ano integraste a equipa técnica do Estágio da Jogadora, organizado pelo Sindicato. Estavas à espera deste convite?
Não estava. Foi mesmo uma surpresa enorme. Fiquei mesmo feliz e dá para notar. Acho que isso faz com que as pessoas acreditem em mim. Eu também tenho de retribuir isso. E acho que o fiz da melhor maneira. Agradeço novamente ao Sindicato, ao doutor João, ao doutor Joaquim, à Carla, pela oportunidade de estar junto de grandes pessoas e de grandes jovens, que espero que futuramente tenham mais sorte do que aquilo que eu tive.

Que balanço fazes da participação no Estágio da Jogadora?
Acho que correu super bem. Pude ter essa experiência de vingar como treinadora. Tirei o curso e estou a fazer o estágio. Isso abriu-me as portas para se calhar, me soltar mais para depois ter mais liberdade ou leveza naquilo que irei fazer. Deu para ajudar as jogadoras com a minha experiência, com a experiência da Carla, da Matilde e da Natacha.

Agora estás no Damaiense. Quais são as funções que desempenhas no clube?
Estou a fazer o estágio no Damaiense e estou a gostar. Tive na semana passada o primeiro jogo. Não correu da melhor forma, mas acho que na formação não é isso que conta. O que conta é aprender, saber aquilo que eles têm de fazer. Os golos pouco importa, mas está a correr bem. Estou com uma equipa fantástica e acho que isso é o mais importante.

Que mensagem gostarias de deixar às jogadoras relativamente à prevenção do cancro da mama?
Acho que há muita informação, as pessoas é que são um bocado desleixadas. Como a vida é uma correria, não param para pensar que a saúde existe, não é? E, como eu digo sempre, trabalho há muito, mas saúde pode haver pouca. Nós temos de pensar sempre que trabalhar é importante e faz falta ter trabalho, mas sem saúde não há trabalho. Acho que há muitos posts direcionados para a prevenção do cancro, seja da mama, seja do colo do útero, do pâncreas. Acho que as pessoas devem prevenir, devem preocupar-se com isso para que à última da hora não seja tarde de mais. O cancro da mama existe tanto para a mulher como para o homem. Temos de prevenir e ver as coisas antes e depois, não é só depois. Recomendo que as pessoas vão ao médico de família e conversem mesmo entre amigos ou assim, para tirar dúvidas. Acho que há muita informação. O problema é que as pessoas com trabalhos, com filhos, com tudo e mais alguma coisa, esquecem-se do mais importante, que é a saúde, que são estas doenças que matam milhares de pessoas por dia.

Que conselhos darias às mulheres que adiam consultas, exames ou que ignoram pequenos sinais de alerta?
Façam a prevenção e estejam sempre atentas a algo estranho que possa aparecer no vosso corpo. Conversem com amigos e familiares que, se calhar, já tiveram a doença e vos podem ajudar. Acho que têm de se cuidar, amar-se e serem felizes. Acho que é o mais importante.

E uma mensagem para a Filipa. O que é que tu queres transmitir de ti para ti? Depois destas experiências todas, pelas quais já passaste.
Que sou uma guerreira e acho que sou uma inspiração para muita gente, para muitos jovens, para muitos adultos, que passam diariamente por situações complicadas. A Filipa tem de sorrir muito, porque ainda virão muitas coisas boas.

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