Opinião: "Atletas online: entre a liberdade de expressão e o ódio digital"


Presidente do Sindicato dos Jogadores e o impacto das redes sociais nos futebolistas. 

No artigo de opinião desta semana, publicado no jornal Record, o presidente do Sindicato dos Jogadores, Joaquim Evangelista, analisa o impacto das redes sociais na carreira dos futebolistas: 

"As redes sociais mudaram a forma como os atletas comunicam com o mundo, tornando-se um verdadeiro escape à obsessão de controlo e proteção dos segredos que se querem guardados dentro do clube. Quantos jogadores já tiveram de responder a medidas disciplinares por uma publicação ou comentário na sua esfera digital? 

Hoje, o currículo desportivo é feito de defesas, assistências e golos, mas também da imagem pública do jogador, dos seus hábitos de vida e da comunidade que o rodeia, sendo escrutinados ao detalhe. Para um jogador de futebol que expõe o seu dia a dia online, o impacto pode ser enorme.

Assumir uma causa, manifestar uma opinião, exibir um ponto de vista ou defender a sua visão de determinados acontecimentos, tudo pode servir para, após um mau jogo, uma época difícil ou simplesmente porque sim, ser atingido pelo ódio que atrás do ecrã conduz os autores a um sentimento de impunidade.

Racismo, xenofobia, apelos à violência, discriminação e ameaças à segurança de familiares fazem parte do leque de abordagens que levam muito atletas a decidir suspender ou eliminar as suas redes sociais. No desporto, em nome da proteção, a resposta é quase sempre cortar a liberdade de expressão individual e criar normas de conduta que têm de ser seguidas por todos.

Os gurus da comunicação tornaram-se quase tão importantes para os clubes como os seus mais valiosos quadros técnicos. No meio de alguma esquizofrenia comunicacional, há trabalho que tem sido feito para garantir a liberdade de expressão, bloqueando mensagens de ódio. 

O 'Social Media Protection Service' que a FIFA introduziu nos seus torneios, apoiado pela FIFPRO, tem tido um impacto interessante. De acordo com o relatório apresentado sobre a utilização desta ferramenta no último Mundial, 1248 jogadores foram monitorizados, e mais de 240.000 posts e comentários confirmados como abusivos e comunicados às respetivas plataformas, num sistema que permite ocultar esta criminalidade gratuita e contribuir para o bem-estar psicológico dos jogadores em prova.

Alguns ataques são difíceis de ignorar, quando tocam nos valores, convicções e estrutura familiar. Saber lidar com este lado da exposição mediática e não ser consumido por ela é, provavelmente, a ferramenta mais preciosa para um atleta que tem nas redes sociais uma oportunidade para trabalhar outros aspetos igualmente importantes da sua carreira desportiva, desde logo parcerias comerciais e projetos para a transição de carreira. Um tema com pano para mangas, que me levará ao S4Congress da APCVD, no dia 27 de outubro, para participar num debate com Sérgio Krithinas e Nuno Maniche."

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