Medidas estruturais e cidadania


A propósito da reflexão sobre a utilização de jogadores estrangeiros, que o Sindicato dos Jogadores promoveu recentemente com a apresentação dos dados nas competições profissionais em Portugal, no site 'sportingpedia.com', o analista Paul Kemp apresentou um estudo comparativo das 10 principais ligas europeias, tendo como premissas o número de jogadores registados e a dimensão dos plantéis, retirando as conclusões sobre as ligas que integram mais jogadores estrangeiros, por contraposição às que apostam mais em talento local.

República Checa e Espanha lideram na utilização de jogadores locais, com resultados acima dos 50%, enquanto Inglaterra e Portugal estão no fundo deste ranking, com 28,22%. Um estudo interessante ao comparar-nos com aquela que é considerada a melhor liga do mundo e cujo modelo de negócio e potenciação de receitas diverge radicalmente da estratégia que tem sustentado o desenvolvimento do futebol português.

Acredito que para os clubes ingleses este não representa um problema de sustentabilidade, mas para os portugueses não será assim. Atendendo à capacidade financeira existente, à base de recrutamento e ao papel da formação no nosso país, precisamos de medidas estruturais que configurem uma discriminação positiva, desde a criação de um fundo estrutural para o desenvolvimento do jogador português, com impacto na fiscalidade a apoios associados à contratação de jogadores formados em Portugal e o seu envolvimento em competição, entre outras medidas que protejam este talento jovem, fundamental para o sucesso de clubes e seleções.

Noutro tema que marca a atualidade, analisando tudo o que sucedeu após a alegação de racismo por Vinícius Jr., começo pelas reações públicas que deviam ter partido da condenação veemente de qualquer ato de racismo, sem desvalorizar a vítima, respeitando o direito à presunção de inocência de Prestianni, que ficou imediatamente comprometido. Muitos quiseram levar o tema para uma guerra de tribos.

Parece-me claro que, além do protocolo antirracismo, que agora se pretende rever em resposta a este caso concreto, do precedente da suspensão preventiva para desenvolver uma investigação, que veremos se a UEFA irá manter em casos com a mesma dificuldade em retirar conclusões imediatas, resulta acima de tudo um dano para o futebol, que precisa ser ainda mais intolerante com o racismo, o discurso de ódio e qualquer tipo de discriminação ou violência. Numa sociedade que caminha perigosamente para o extremismo, precisamos de ações pedagógicas, desde os primeiros passos dos jovens nos seus cubes desportivos, ao trabalho de formação para a cidadania, na escola e em casa.   

Artigo de opinião publicado em: jornal Record (1 de março de 2026)

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