O futebol português nas entrelinhas


A época 2025/2026 está fechada a nível nacional, sendo conhecidos os competidores da próxima época em cada escalão, no pressuposto de que não existirão surpresas nos processos de licenciamento e inscrição das equipas. No balanço a fazer, além de aspetos referentes à calendarização de jogos e proteção da saúde e bem-estar dos jogadores, existe do lado dos protagonistas um conjunto de temas recorrentes que merecem atenção para o futuro.

No contexto laboral desportivo, continuámos a ter atrasos no pagamento de salários e controlos salariais ultrapassados com regularizações no limite da abertura de processos disciplinares ou com acordos de deferimento dos prazos para pagamento, solicitados aos plantéis como forma de salvamento do clube. Afastamentos do plantel, dispensas sem fundamento legal ou despedimentos ilícitos seguiram-se no ranking dos atropelos, abrindo espaço para propostas do Sindicato dos Jogadores em sede de regulamentação disciplinar do assédio laboral, um passo que é indispensável.

As infraestruturas desportivas e condições de trabalho dos atletas continuam a ser “calcanhar de Aquiles”, em especial nas divisões inferiores, sendo claramente uma prioridade de investimento em Portugal, da base ao topo onde o processo de centralização de direitos está à porta e é preciso valorizar a competição. Além do problema já identificado da falta de escrutínio e exigências aos investidores das sociedades desportivas, vivenciámos conflitos alargados decorrentes de contratos de representação desportiva, em especial por fenómenos de dupla representação e falta de transparência na relação entre agente, jogador representado e clube.

O tema das lesões foi um dos mais complexos, desde a ativação atempada dos seguros, em especial no futebol amador, às coberturas limitadas e cuidados prestados. Para os estrangeiros não houve, igualmente, vida fácil, em especial os que aguardam há vários anos por um desfecho no seu processo, vendo arrastar os prazos e tardar as respostas prestadas pelos serviços da AIMA. A este nível, os canais de comunicação com o desporto continuam a ser insuficientes.

Nota ainda para os processos de insolvência e PER’s que continuam a proliferar, ano após ano, lesando centenas de credores, e para uma reforma do TAD que é urgente e deve ser pensada devolvendo a regulação da arbitragem voluntária em matéria laboral à contratação coletiva. Entre outros temas, como sobrecarga nas equipas de elite e a falta de espaço competitivo nas divisões abaixo, o mais importante continua a ser o diálogo, a cooperação e o respeito institucional para encontrar respostas que defendam o nosso futebol.

Artigo de opinião publicado em: jornal Record (7 de junho de 2026)

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