Começar bem importa
Começar bem para acabar bem é um ditado que não se aplica apenas aos resultados desportivos. No plano do cumprimento de obrigações financeiras é, quase sempre, um indicador de uma época tranquila, ou o início dos sobressaltos. A história das ligas profissionais é marcada por uma evolução extraordinária.
Superámos a banalização do atraso no pagamento de salários e conseguimos o ponto de viragem com a implementação da Portaria 50/2013, introduzindo a Comissão de Auditoria e tudo o que foi feito ao nível do licenciamento e do controlo salarial depois disso.
Uma evolução fantástica, apesar dos desafios da autorregulação dos clubes, que tendo o poder absoluto de legislar em causa própria, poderiam aperfeiçoar os mecanismos de escrutínio tornando o incumprimento verdadeiramente incompatível com a participação na competição.
Apesar da queda de alguns históricos pela implementação das regras vigentes, esse nível máximo de exigência ainda não existe em Portugal. É quase sempre em função da classificação desportiva obtida no final da época, que os clubes que não garantem os objetivos desportivamente procuram reflexões tardias sobre como o futebol português não pode tolerar os incumpridores.
Este modo de proceder, com o qual me confronto há anos, torna difícil uma reflexão aprofundada sobre medidas que, sem poderem erradicar situações de incumprimento, porque não têm génese apenas nas dificuldades financeiras dos clubes, poderiam combater esse incumprimento sistémico que se arrasta em tantos momentos da época desportiva.
Antevejo um mês de agosto e setembro difíceis, justamente até ao próximo controlo salarial. Atualmente, e apesar do galopante aumento do investimento estrangeiro nas sociedades desportivas, com o processo de centralização de direitos de transmissão a decorrer e uma elevada circulação de jogadores, com Portugal a liderar rankings ao nível das transferências internacionais, é ponto assente que existem clubes a começar mal e jogadores a sofrer as consequências pessoais e profissionais disso.
Obviamente que, se no topo é assim, o que se passa na base não podia ser diferente. Sem prejuízo da representatividade em órgãos fundamentais, Liga e Federação devem promover maior cooperação institucional, trabalhar com o Sindicato dos Jogadores, no que se refere aos atletas, na sinalização atempada dos problemas e antecipação de soluções.
Muitos advogam que o problema perdeu expressão para merecer este destaque. Garanto que os jogadores e respetivas famílias lesados todos os anos discordam profundamente.
Artigo de opinião publicado em: jornal Record (26 de julho de 2026)