Maria Alice Evangelista
Esta semana perdi a minha mãe e sei que o céu guarda um lugar muito especial para ela. Só pode ser assim para alguém cheio de luz, generosidade e bondade. Foi mãe, avó, tia, amiga, confidente de tantas pessoas que, na hora do último adeus, fizeram questão de lembrar a importância que ela teve na sua vida.
Fica comigo uma profunda saudade, mas também uma imensa gratidão. Tudo o que sou, o que construí e aprendi tem a marca indelével da minha mãe. Somos de Bragança e carregamos em nós a força das gentes de Trás-os-Montes, preparadas para uma vida muito dura e com oportunidades escassas.
A minha mãe pertenceu a uma geração de mulheres que aprenderam cedo a viver para os outros. Criou filhos, cuidou dos pais, ajudou irmãos, sobrinhos e quem precisasse. E fê-lo sem queixas, sem anúncios e sem esperar reconhecimento. Do pouco que tivesse arranjava sempre forma de dar, tinha nela o sentimento de que a melhor recompensa era poder ajudar os outros.
Hoje fala-se muito de liderança, inspiração e exemplo. A minha mãe soube conjugar tudo isso. Foi casa para muita gente, preocupava-se genuinamente com os outros e encontrava sempre espaço à mesa para mais um. Acreditava que ninguém cresce sozinho e, por isso, as relações e amizades construídas pelos seus filhos tinham muito valor. Mais do que o meu percurso académico ou profissional, do qual se orgulhava, sentia-se grata por saber que construí amizades que perduram como alicerces para a vida, e nunca estarei sozinho num momento de aflição.
Fui o primeiro da família a concluir uma formação superior. Tenho a certeza de que isso aconteceu porque a minha mãe acreditou na educação, muito antes da sua importância ser generalizada. Acreditou, talvez mais do que eu, que seria uma forma de emancipação e liberdade. Quando surgiam dúvidas, ela via possibilidades. Quando apareciam dificuldades, ela encontrava razões para continuar a lutar.
Nunca frequentou universidades, mas ensinou-me algumas das maiores lições da minha vida. Uma sabedoria vertida na voz preocupada de quem nunca descansava sem saber se eu estava bem.
Nos últimos dias tenho recordado pequenos detalhes que, afinal, eram tudo. Gosto de figos por causa da minha mãe. Gosto de arroz doce por causa da minha mãe. Gosto de cerejas por causa da minha mãe. Sou devoto de Nossa Senhora de Fátima por causa da minha mãe. Tenho tanto da minha mãe que é impossível que ela alguma vez se apague em mim.
Tive a oportunidade de partilhar com ela a vida, tal como ela é, com todas as suas dificuldades, mas viver momentos da mais intensa felicidade. A avó Alice tinha uma relação com os meus dois filhos muito especial. Durante muitos anos formámos um núcleo inseparável e, por estes dias, percorremos muitas fotos de momentos únicos a quatro, tantos Natais e passagens de ano no calor do seu abraço. Era o nosso ritual familiar. Foi curioso que, após a sua morte, um dos meus filhos tenha de imediato comentado que passámos de quatro a três. Não para excluir outras pessoas importantes na nossa vida, mas para salientar que este núcleo familiar era único, tão forte que era o sentimento de pertença e o amor.
O ciclo da vida é assim, de renovação. Foi um privilégio tê-la connosco, num tempo que parece agora tão pouco, mas que nos servirá sempre de inspiração. Tal como para a minha família, os meus amigos conheciam esta forma tão simples e espontânea com que a minha mãe os acolhia. Tendo dedicado a minha vida ao futebol, era natural que ela também tivesse o bichinho da bola, e entre os meus amigos via o João Vieira Pinto como um ídolo.
Percebo agora que entre sabores, cheiros e memórias, esta ligação nunca se apaga e perdura para sempre dentro de nós. Sem saber que seria a nossa última conversa e convicto de que o pior já tinha passado, tive o privilégio de me despedir com o olhar que queria guardar para sempre. Nestes dias tenho-me lembrado de uma frase de José Tolentino Mendonça que tantas vezes me emocionou: "Os olhos de uma mãe são o que mais se aproximam dos olhos de Deus."
Naquele último momento compreendi-a inteiramente.
Hoje estou sereno e tremendamente grato. Em Fátima, agradeci a Deus o privilégio de ser seu filho e pedi que a acolhesse no seu abraço. Gosto de pensar que ganhei mais um anjo da guarda e sei que continuará presente de várias formas.
A simplicidade e o amor da minha mãe fazem com que ela ocupe para sempre o lugar mais importante da minha vida.
Até sempre, e obrigado mãe!