Cada vez menos silêncio
O Dia Mundial da Saúde Mental é o mote para múltiplas campanhas que sensibilizam a comunidade para a importância deste tema. De acordo com todos os relatórios que vão sendo publicados, as perturbações psicológicas são transversais, desde o ensino ao mercado laboral e afetam, de forma galopante, as novas gerações. Ser resiliente, física e mentalmente, é regra escrita em muitos manuais sobre o sucesso para um atleta de alto rendimento. Talvez por isso, ao longo dos anos cresceu o estigma entre os jogadores para procurar ajuda.
Visto como um sinal de fraqueza, desde que a máquina funcionasse e os resultados desportivos aparecessem, ainda que a troco de profunda infelicidade e mau estar permanente, falar abertamente de problemas de saúde mental era um verdadeiro tabu. Fora da visão cor-de-rosa que existe sobre a vida dos futebolistas, a realidade é feita de permanente instabilidade, numa carreira que pode mudar drasticamente a cada minuto de cada treino, com uma lesão grave, ou ser afetada pela falta de oportunidades para jogar, um conflito laboral, a mobilidade constante ou, simplesmente, o inevitável decurso da idade que aproxima o final da carreira.
Alguns ganham o suficiente para que a instabilidade financeira não seja tema e, ainda assim, por variadíssimas razões, enfrentam estes mesmos problemas durante e após a carreira. Hoje a situação é, apesar de tudo, bastante diferente daquela que marcou as gerações passadas. São cada vez mais os clubes que integraram o apoio psicológico nas suas estruturas internas e trabalham aspetos relacionados com a identificação de sinais de alerta e prevenção, ainda que alinhadas com uma estratégia de potenciação da performance.
Mesmo quando existe dificuldade em aceitar expor problemas do foro pessoal a um técnico que presta funções para a entidade desportiva que os contrata, os jogadores sabem que têm a quem recorrer, independentemente do momento da sua carreira, do escalão competitivo ou da situação económica que atravessam. São justamente estes sinais de mudança que se refletem no número de atletas que recorrem ao apoio do Sindicato dos Jogadores e me levam, na pessoa do Dr. Pedro Teques, que desde o primeiro minuto coordenou o nosso projeto, a agradecer a todos os profissionais inseridos no protocolo que celebrámos com a Ordem dos Psicólogos Portugueses e têm garantido uma assistência qualificada em todo o território nacional.
Tenho, infelizmente, memória de casos que terminaram com a destruição de grandes amigos e das suas vidas familiares. Contudo, são cada vez mais os exemplos de que é possível dar a volta por cima e voltar a vencer, tanto no futebol como na vida.
Artigo de opinião publicado em: jornal Record (11 de outubro de 2026)