Literacia financeira: de ator secundário a protagonista


O Dia Mundial da Poupança, celebrado a 31 de outubro, é uma data simbólica que chama a atenção para a importância da literacia e adequada gestão financeira para o bem-estar das populações.

Durante anos, os futebolistas foram considerados um grupo à parte, que auferia salários acima da média e beneficiava de estruturas de apoio que dispensavam a preocupação com esta área.

Nada mais errado, que se veio a comprovar com inúmeros casos de atletas enganados e envolvidos em investimentos errados que destruíram as suas vidas, sem falar do precipício gerado no pós-carreira, por falta de soluções atempadas para a transição e a incapacidade para assegurar os encargos pessoais ou familiares, poucos meses após o pendurar das chuteiras.

Em 2019, depois de aderirmos ao “Todos Contam”, acrescentando a este fantástico programa educativo dos Supervisores Financeiros a frase: “e no futebol também”, realizámos um diagnóstico fidedigno à situação no futebol.

Os jogadores e jogadoras inquiridos mostraram uma preocupação que já conhecíamos com a poupança ao longo da carreira, embora muitos continuassem a não saber como proceder, e outros, que persistiam com salários baixos, vínculos precários e alternação entre períodos de atividade e desemprego, revelavam não ter as condições para gerar poupança, limitando-se à gestão diária.

Pior fica a situação quando ocorre um divórcio que leva a uma gestão ainda mais complexa dos recursos que se destinavam a acautelar o futuro.  

É neste contexto que entra a literacia financeira, uma temática que tem motivado o interesse e partilha de experiências nos balneários percorridos pela equipa do Sindicato dos Jogadores, de norte a sul do país. Hoje, o plano B não é um conceito abstrato.

É um caminho, que conjuga conhecimento académico, formação personalizada e aproveitamento de 'soft skills', uma visão integrada para a realização de investimentos adequados, primeiro através da valorização pessoal do atleta e depois na construção do seu projeto de vida, cada vez mais ligado ao empreendedorismo.

Os jogadores são habitualmente apelidados de egoístas, mas a minha constatação ao longo dos anos é que são, tantas vezes, as escolhas mais altruístas, a necessidade de zelar pelos interesses de familiares, ou apoiar amigos, e o adiar do futuro, para tentar viver com foco exclusivo a experiência de ser profissional de futebol, que transformam esta atividade num potencial risco de colapso financeiro.

Que apoios reivindicamos? Sendo as ajudas do sistema de previdência e proteção social ridículas, numa profissão que deveria ser enquadrada como de desgaste rápido, é tempo de juntar a literacia financeira a projetos de capacitação que sejam verdadeiramente transformadores.

Artigo de opinião publicado em: jornal Record (1 de novembro de 2026)

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